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É tudo pura ilusão

Harry Houdini: ilusionista
O ilusionismo é a arte da prestidigitação que induz à distração o expectador para que creia que o truque é algo de sobrenatural. Nada mais é do que um artifício de quem possui uma habilidade incomum com as mãos. Explora a nossa capacidade de atenção, já que, por mais que acreditemos, não somos capazes de fazer mais de uma coisa ao mesmo tempo com 100% de nosso foco.

Da mesma forma, a violência perversa que se instala nos casos de assédio moral utiliza no processo esta eficiente ferramenta de destruição- o desvio de foco- cujo objetivo final é o controle sobre alguém. Pesquisadores do comportamento descobriram que toda esta engrenagem ocorre em duas etapas: a primeira é a chamada sedução perversa; a segunda: violência perversa.

Inicialmente o agressor procura desviar a atenção de suas verdadeiras intenções através de um processo de desinteligência sistemática com a preocupação de angariar o apoio e simpatia da pessoa ao mesmo tempo em que levanta informações importantes pra poder manipulá-la de forma eficiente. Deste modo atrai e distrai simultaneamente sem que desperte no outro os mecanismos de defesa que lhe permitiriam defender-se.

As táticas são muitas, ainda que nenhuma seja original. É o amigão do peito, a confidente do coração, o parceiro de churrasco etc. Você sabe, está careca de saber, mas mesmo assim ainda caímos nestes truques baratos. Mas também, quem consegue resistir a uma pessoa tão legal, não é mesmo! Pois, é: os agressores contam com isso.

Você já viu uma arapuca? Sempre tem uma isca pra pegar um animalzinho inexperiente, né? São as armadilhas que vêem com uma promessa fácil de benefício imediato e o bichinho chega a lacrimejar de emoção por tamanha sorte. Em poucos minutos, no entanto, descobre que irá parar na panela. É a magia do fascínio que neutraliza o bom senso e a razão.

Feito isso, o agressor passa a ter o domínio sobre o outro sem que este o capture, pois ele não fica nas mãos de ninguém; ele é o escravizador. A idéia é a de corromper pra possuir, ou seja, levar a pessoa a emular- se tornando- se tão suja quanto ele pra depois utilizar isso como meio de chantageá-la mostrando-lhe o quanto moralmente está comprometida, e, portanto, à sua mercê.

A partir do processo de sedução perversa inicia-se a violência propriamente dita. Tudo não passou de uma introdução para a meta principal que é o assédio moral em sua dimensão plena. Ataques à sua autoestima passam a ser constantes, e, de forma sistemática e gradual, minam qualquer possibilidade de resistência da vítima.

Naquele primeiro instante o que se pretendia era enredá-lo para colocá-lo sob controle, aprisioná-lo, desconstruí- lo moralmente para então, uma vez dominado, passar a acuá-lo. Todo trabalho acontece de forma furtiva, subrepitícia, insidiosa, nas sombras pra que não se consiga perceber o que está acontecendo. O assediado vai sendo cozido brandamente e quando se percebe já é tarde demais. É a tática da emboscada ou da predação. É o princípio da covardia.

Como os ilusionistas, o assediador procura neutralizar a razão e o bom senso do outro. É preciso tirar dele qualquer chance de ter tempo de defender-se ou esboçar reação. Tanto que mesmo durante ataques declarados muitos ainda acreditam serem culpados pela violência do agressor, inclusive os colegas que logo retiram- lhe qualquer apoio- é o isolamento.

Quando as mascaras caem e a pessoa passa a saber com quem está lidando sente- se traída e indignada. Ocorre que o assediador também é um ator e, como ninguém, interpreta  o papel de vítima ao mesmo tempo que explora a desestabilização do outro para que pensem que é um desequilibrado. Sem contar que usa contra este os segredos de atos comprometedores que habilmente o levou a cometer. Em determinado momento se desiste de lutar e passa- se a ser um cúmplice das agressões que são cometidas.

Todo o processo foi maquiavelicamente elaborado e plantado na mente descuidada através de um sofisticado mecanismo de lavagem cerebral inato do agressor. O hipnotizado faz tudo que a voz de comando determinar mesmo que seja ilícito, imoral ou absurdo. Não se questiona, apenas se cumpre.

Algumas dessas pessoas você já chamou de bajulador; outras foram ingênuas e inexperientes mesmo. Seja como for caíram nas garras de um perverso inescrupuloso e pagaram um preço caro e amargo por isso. Ora, a sedução perversa é apenas uma das faces da violência moral. Mais se parece com a terrível Medusa que petrifica, paralisa e anula da mesma maneira.

Por isso que é importante procurar ter uma visão clara e correta do mundo. Tanto suas coisas boas quanto seus perigos. Procurar saber onde se pisa e que tipo de ambiente estamos. Agora, não deveríamos enxergar o mundo pela boca dos outros, mas por nossa própria avaliação. É lógico que há importância nas interações, mas estas são parte de um todo e não o seu resultado final. Por isso que fomos dotados de um cérebro fantástico capaz de raciocinar, avaliar e analisar. Podemos, no entanto, preferir a ilusão que brilha e fascina mas que na ponta oferece um anzol que nos prenderá e causará um resultado não muito agradável.

Perceba o quanto é oneroso se deixar induzir ou conduzir por alguém. Pode ser que em determinado momento isso pareça vantajoso, mas é no fim da história que se percebe o erro que se cometeu. 



Raniery
raniery.monteiro@gmail.com

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