terça-feira, 29 de outubro de 2013

Nadando A favor Da Maré


Viver em grupo pressupõe se deparar com todo tipo de pessoa, e isso nos inclui em relação aos outros e seus pontos de vista acerca de nós.

Cada um tem sua personalidade, jeitos, hábitos, vícios, caráter, etc. A soma destas características formam as pessoas que atuarão em sociedade. Cada uma delas carregará dentro de si determinados programas ou valores que influenciarão suas ações.

Nas sociedades competitivas como a nossa, a desintegração de valores sociais importantes vem ocorrendo desde a segunda grande guerra. Não confunda isso, por exemplo, com as conquistas das mulheres no que diz respeito a sua liberdade sexual, ou outras de cunho moral mesmo.

Hoje em dia relativamos tudo em função de interesses, sobretudo, econômicos. Nas grandes empresas não é incomum a chamada puxada de tapete. O colega de ontem, se torna o traidor de hoje; A moça, que para ascender profissionalmente, oferece seus serviços sexuais ao chefe, ou, o oposto, já que muitas mulheres estão em cargos de poder. É o vale tudo do mundo corporativo.

É bem verdade que muitos destes comportamentos são incentivados pelas próprias organizações que os escalonam como valores importantes dentro do sistema capitalista predatório. Uma vez dentro daquele ambiente a pessoa começa a ser bombardeada em seus centros de vontade e, caso não esteja convicta de seus ideais, acabará cedendo e será mais uma naquela pérfida engrenagem.

Mas, o que se percebe é que a crise de valores atinge todas as camadas da sociedade onde o egocentrismo se tornou o mestre supremo. Sendo assim, vemos que por todos os lados a falta de respeito, a capacidade de humilhar, de enganar, de se aproveitar da boa fé das pessoas é uma característica que, infelizmente, ocorre todos os dias. É o advogado que deveria te defender, mas te trata como inferior, o médico que sequer está preocupado com o estado da vítima, o psicólogo que abusa emocionalmente de seu paciente, entre tantos exemplos.

Existem alguns países que avançaram e ainda contam com a própria formação de seu povo que possui um forte senso de coletividade, mas em países como o Brasil, onde a lei do mais experto tende a se impor, as coisas são terríveis. Quando a coisa descamba para as esferas públicas, aí, é que "desgraça pouca é bobagem".

Vários destes princípios e valores são tutelados por nossa constituição brasileira, mas não chegam a se materializar sobre seus cidadãos. Uma coisa é certa: respeito, consciência, compaixão não são valores que se aprendem em bancos de universidades, sejam elas quais forem. 

Conheci uma pessoa que me deixou impressionado pela sua total falta de consideração pelos pais que lhe fizeram tanto. Ela me disse que não tinha intenção de sair de casa, pois seu pai lhe dava de tudo- estudo, dinheiro e, ainda, montou seu escritório. Aquilo sempre ficou na minha cabeça e anos depois vim a constatar de que minha primeira intuição não estava errada, já que ela mostrou sua verdadeira face de mau caráter que é. Bem, esperar o quê de um parasita?

Uma outra pessoa que conheço só costuma torcer para o time que está vencendo. Se o grupo é favorável a determinada linha de ação, ele, então, adapta seu discurso pra não o contrariar, mesmo que inicialmente caminhava em linha oposta. Foi engraçado ver nesses dias como ele mudou de posição por conta do repúdio do grupo a uma proposta absurda de mudança de horário de trabalho agindo como se fosse defensor do sentimento coletivo, ou seja, ele nada conforme a maré.

Enfim, isso me faz pensar em como eu mesmo posso olhar pra mim e mudar aquilo que não está bom em termos de personalidade. Como poderei cultivar valores melhores para me distanciar deste tipo de atitude negativa e contribuir para um mundo melhor. Pois, não basta somente olhar para o outro e não corrigir os próprios passos, aliás, cheguei à conclusão que terei muito trabalho pela frente.

Portanto, vou começar agora....


Raniery


raniery.monteiro@gmail.com
http://mentesalertas.wordpress.com/

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Inteligência Indigna


Todos os seres vivos são dotados de inteligência que se manifesta em seu arsenal de comportamentos e, traduzido de forma pragmática, significa capacidade de sobrevivência.

A adaptação ao meio produziu inúmeras reações que nos tornaram bem sucedidos como espécie neste planeta. Estes tipos de programas biológicos foram organizados em comportamentos ou na capacidade em desenvolvê-los.

Com o maior cérebro proporcionalmente em relação aos outros animais e um complexo intricado de neurônios, fomos dotados de uma inteligência que nos tornou seres capazes de modificar o próprio meio em que vivemos.

Mas, nosso problema não é a falta de inteligência, mas o mau uso dela. Acredito que até a utilizamos de forma positiva, na maioria das vezes, mas a história demonstra que sua utilização  para fins inescrupulosos também é um fato.

Acompanhe-me neste raciocínio e veja se não tenho razão em minhas asserções, sobretudo, no que diz respeito ao tema central do blog que é o assédio moral.

Começando pelo agressor que se utiliza de sua inteligência para manipular pessoas com a pretensão de controlá-las pelo medo e simultaneamente estabilizar-se psicologicamente. É uma inteligência maligna por assim dizer.

Já, a vítima, poderá ter a sua razão bloqueada se for tomada pela ansiedade e pela desestabilização emocional decorrentes de tais perseguições. A confusão não permite que se tome as medidas mais adequadas e pode deixar a pessoa vulnerável e torná-la uma presa fácil para o assediador. É o medo neutralizando a inteligência.

O grupo, testemunha tácita da violêncina, tenderá a receber a mensagem de que a resposta adequada será o comportamento submisso e/ou omisso. Confrontar o assediador poderá atrair a ira do agressor. Todos serão induzidos a não se envolver na situação acreditando que ao fazê-lo estarão isentos de sofrer o mesmo dano.

Mas destes todos, gostaria de chamar a atenção para o puxa saco que, até então, era tido como uma pessoa limitada e com tendências masoquistas. Eu penso o oposto. Acredito que, de fato, são bem inteligentes, por sinal.

Se prestarmos atenção em sua estratégia entenderemos bem que se trata de alguém com um senso de objetivo bem definido e que sabe onde quer chegar, e, de bobo não tem nada.

Eu citei a palavra estratégia propositadamente, pois só a utiliza aquele que possui a capacidade de planejar seus passos. E, é isso que o adulador faz. Primeiro, procura detectar quem é o detentor do poder nos ambientes onde circula. Depois, seu próximo passo será oportunamente se aproximar do tirano local e oferecer sua subserviência, ou melhor, a simulação perfeita dela.

O agressor, que sente uma necessidade mórbida em humilhar, logo se empolga em ter um bichinho que deliberadamente aceita ficar debaixo de seus pés. Ora, assediar pessoas que resistem é desafiante, mas desgasta, portanto, ter alguém que revigore sua patologia perversa e o estabilize passa a ser um bom negócio.

Veja que não é porque o puxa saco é inteligente que o que faz o torna digno. É o caso em que uma qualidade se sobrepõe a outra em prol de interesses de cunho egóico. Inteligência alguma substitui a dignidade como forma de se conquistar a felicidade. Chega a ser incoerente, a propósito. Como posso ser feliz sendo indigno? Não que isso incomode o adulador, até porque ele não possui amor próprio mesmo, logo não se constrange ao ser aviltado.

Acontece que uma sociedade materialista colocará como escopo de sua busca pela felicidade justamente coisas que, uma vez possuídas, perdem seu valor, por outras, que ainda não se adquiriu, até, então. É uma fome que nunca se sacia, uma sede que nunca acaba...o inferno, na Terra.

Então, veja: a natureza levou centena de milhões de anos construindo seres que pelos processos de adaptação foram sendo refinados e que, no nosso caso, culminou em uma estrutura orgânica complexa, dotada de consciência de si mesma, mas que prefere subutilizá-la em função de algo efêmero que desafia as leis deste mesmo processo. E aqui não estamos falando de sobrevivência, mas de ganância.

Caso tenhamos chegado às mesmas conclusões, admitiremos que determinados comportamentos aprendidos em nossa atual civilização, como o assédio moral, por exemplo, acabaram se tornando contrários a nossa própria natureza pela decorrente inversão de valores que curiosamente surgiram para nos tornar bem sucedidos enquanto espécie.

Então, no fim das contas, não é só a inteligência ou a falta dela que conta nos processos da vida, mas aquilo que nossos ancestrais nos ensinaram como bom senso, juízo, ponderação, prudência, que nos fortalecem socialmente e, por consequência, individualmente.  E isso, em última análise nos torna bem sucedidos em viver, ou, sobreviver.

Raniery

raniery.monteiro@gmail.com
http://mentesalertas.wordpress.com/

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Coisificação


"Era o casarão clássico das antigas fazendas negreiras. Assobradado, erguia-se em alicerces o muramento, de pedra até meia altura e, dali em diante, de pau-a-pique. Esteios de cabriúva entremostravam-se, picados a enxó, nos trechos donde se esboroava o reboco. Janelas e portas em arco, de bandeiras em pandarecos. Pelos interstícios da pedra, amoitavam-se samambaias e, nas faces de noruega, avequinhas raquíticas. Num cunhal, crescia anosa figueira, enlaçando as pedras na terrível cordoalha tentacular. À porta da entrada ia ter uma escadaria dupla, com alpendre e parapeito esborcinado."

O belíssimo e rico texto de Monteiro Lobato, que me faz associá-lo a lugar bem conhecido, descreve a decadência do que outrora fora um tempo imponente que se pensava  jamais acabaria e que só deixou uma estrutura ao sabor da corrosão do tempo e intempéries. Paralelamente, nos deixa uma mensagem subjetiva sobre as transformações que ocorrem e que são inevitáveis. Nos remete também à ideia de que aquilo que foi bom no passado pode não o ser mais hoje.

Com 8 bilhões de habitantes disputando bens escassos, derivados da natureza, a sobrevivência nunca foi tão acirrada. Desde os tempos mais remotos, quando ainda éramos coletores/caçadores e vivíamos em cavernas, dividir e se especializar na execução de tarefas de cunho laboral se tornou uma necessidade. As eras se passaram, as civilizações apareceram e se sofisticaram, em graus cada vez mais complexos de organização e interdependência,  e, hoje,  isso é um fenômeno global.

Fato é, que a única certeza que se tem é a da mudança-  que se tornou algo com intervalos de tempo cada vez menores. A cada nova geração de crianças que nasce,  junto, surge uma nova tecnologia que imediatamente torna a anterior obsoleta. Somos uma sociedade de consumo onde o meio se tornou um fim em si mesmo e nesse processo transferimos essa característica para tudo, inclusive, nós mesmos. 

Imagine a seguinte situação: você trabalha numa empresa, segue todas as diretrizes determinantes com o intuito de ser um profissional  "exemplar"; não somente isso, também procura executar suas funções com o maior desempenho possível e o faz com méritos.

Esse é o quadro. Então, o que se conclui? É a situação ideal que por competência indicaria que você deveria seguir um curso de ascensão profissional, certo? Seria, se não houvessem lugares onde isso de nada vale. Neles, o profissional, e, portanto, o ser humano por trás dele, não passa de mero objeto que se usa e quando se perde o interesse é descartado. Mas, sabemos que isso não é novidade, pois há uma tendência, em determinadas empresas, de mostrar à opinião pública uma imagem e, no entanto, sabe-se que na prática é outra coisa.

Sem contar o paternalismo que, pelo menos aqui no Brasil, é uma forma arcaica que o empregador ainda adota nas relações trabalhistas que se verifica, inclusive, em nossa atual legislação.

Nessa "filosofia" o trabalhador é contratado por um favor do patrão que lhe paga um salário com conotações de esmola e não numa verdadeira relação contratual de trabalho, com vínculo jurídico, estabelecendo direitos e deveres para ambas as partes- o empregador entra no termo ambas.

Evidentemente, neste tipo de relação, conhecido como negócio jurídico, se definem e se delimitam o que cabe a cada parte. Não há que se falar em favores, pois isso é uma herança maldita dos tempos do coronelismo. A insistência em modelos mortos demonstram o despreparo e o amadorismo que se esconde por trás de belas roupas e palavras bonitas, sobretudo, em programas de televisão que aparentam uma cobertura VIP, mas que são matérias pagas para adular os egos inflados e obesos de um empresariado predador.

Nesses dias, por exemplo, no porto santista, assistimos atônitos as chamas consumirem cinco armazéns de açúcar que operam 24 horas, 365 dias/ano e que não possui tempo hábil para devidas manutenções. Eu trabalho aqui e vejo como fazem as coisas, e,  isso, não é novidade alguma para nós. Mas, a ganância fala mais alto e se conduzem as coisas pelos falso raciocínio de que "se nunca aconteceu,  jamais ocorrerá". Essa é outra herança maldita do brasileiro.

É claro que esta mentalidade não é privilégio nosso, basta lembrar do problema enfrentado pelos EUA em relação às hipotecas e seus bancos que derrubou a economia mundial recentemente. Pura ganância. Lembro- me de um programa da Opra onde americanos estavam sendo despejados de suas casas e de uma combatente no Iraque morando em um carro. Aquilo me deixou perplexo.

Quando os homens se esquecem de que todo nosso legado evolutivo fez de nós a espécie dominante do planeta, justamente por se proteger pela estratégia da vida em sociedade, coisas como essas acontecem e somos reduzidos a lixo que se descarta, deflagrando as maiores mazelas de nossa existência. Dentro desta linha, li outro dia algo como: "precisamos menos de inteligência, pois já a temos de sobra, e mais de humanidade" que é o que está faltando ao mundo.

Penso que precisamos reformular nossa postura, de sociedade de consumo, para de consciência, sob pena de nos tornarmos uma vaga lembrança como "A casa da fazenda" de autoria do escritor brasileiro, pois decadentes, já nos tornamos a muito tempo.
Raniery

raniery.monteiro@gmail.com
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