quarta-feira, 27 de abril de 2016

Síndrome de Sardinha


Vejamos se conseguimos intuir algo acerca do comportamento atual dos brasileiros com base em teorias fundamentais de cientistas
consagrados.

Sobreveio-me a possibilidade de haver um nexo convergente a partir de quatro pontos hipotéticos: de um lado, há as teorias do inconsciente coletivo de Freud; de outro, a incerteza de Heisenberg e o caos dos fractais; num terceiro ângulo, temos os movimentos aleatórios dos cardumes em sua dança sincronizada de reações instantâneas, e, por último, as recentes descobertas da neurociência acerca da conectividade neural.

Freud, grosso modo, afirmou que há um inconsciente coletivo, fruto da nossa evolução, que nos faz compartilhar dos arquétipos num nível imperceptível e que somente por alguns processos heterodoxos se consegue trazê-los à tona.
Por sua vez, a teoria do caos certifica que o aleatório se reproduz a partir de uma fonte matriz, a exemplo das florestas, onde, partindo dos modelos matemáticos dos fractais, se provou tal hipótese - sendo válida a afirmação de que há ordem no caos.

Seguindo numa inter-relação, a partir da observação dos movimentos dos cardumes constata-se a beleza plástica do caos e da aleatoriedade em movimentos dinâmicos e precisamente reativos que formam um novo ser composto de um sem números de indivíduos.
Esses, por sua vez, perdem a identidade naquele “bololô” todo. Entretanto, acabam ganhando um elemento de defesa frente aos “predadores” - justificativa.

Por fim, e, arrematando minha teoria, temos a nossa estrutura
neural funcionando como antenas receptoras/ emissoras que, por sua
vez, se conectam, hoje em dia, instantaneamente a internet, meio de tráfego disso tudo. Tal meio poderia ser confundido como um quinto elemento, embora, componha uma das estruturas da teoria das comunicações: o canal – forma de tráfego da mensagem.

O Twitter recentemente descobriu algumas características intrigantes de tal fenômeno baseando-se em algoritmos estatísticos das “hashtags”. Constataram que instantes antes a eventos dramáticos havia um aumento de determinadas “hashtags” que agiam como um pressentimento do que estava por vir - inconsciente coletivo.

Outrossim, podemos muito bem, estar julgando pessoas como alienadas, que não conseguem processar seu senso crítico, mas que na verdade, estariam manifestando conexões como as de um cardume amedrontado reagindo, portanto, pelo medo – o que nos faria deduzir que não seriam pessoas racionais, sensatas, mas idiotas que não possuem a menor capacidade de leitura de seu meio.

As organizações midiáticas representariam, sobretudo, os fatores de influência que desencadeariam os movimentos sincronizados que, então, seriam interpretados como perigo. Tais reações, é sabido, devem funcionar instantaneamente (instinto) e não utilizam a razão, pelo simples fato de estarem ligadas aos mecanismos de sobrevivência, o que é explorado por tais mídias, segundo os interesses de sua linha editorial.

O ponto ilusório é que o cidadão sob manipulação, acreditaria estar processando as informações criticamente, quando na realidade, manifestaria, outrossim, a programação implementada, afinal de contas está sob o continuo bombardeio de ideias que, em determinado instante, atuarão como verdade sob o manto do inconsciente.

Notei também uma impressionante similaridade com as sardinhas por ocasião das manifestações contra o atual governo. Uniformizados com a camisa da seleção brasileira de futebol, os “Coxinhas” integraram o aspecto visual de descaracterização individual e, simultaneamente, de integração típica dos cardumes. Houve até uma cena hilária de uma ridícula dancinha de um grupo demonstrando o sincronismo característico de tais grupamentos de peixes.

Os políticos corruptos do parlamento tomaram proveito disso por ocasião da votação do impeachment da Presidenta que viralizou pelo mundo extraindo o senso de ridículo que chegou a constranger o mais radical “Coxinha”, por conta dos surtos de faniquito dos parlamentares que, em alguns casos, vieram a ser desmascarados nos dias subsequentes em razão de envolvimentos com ilícitos e corrupção.

De outro lado, dois episódios me chamaram a atenção, por esses dias, que demonstram a má fé dos meios de manipulação em massa: dois âncoras da mesma tevê, ao vivo, não conseguiram disfarçar sua intencionalidade cometendo atos falhos que denunciaram a contradição de seus discursos.
Um, na tentativa de induzir o telespectador sobre a presidenta Dilma Rousseff (pensou) falou o nome de outro presidente (FHC) - conhecidamente apoiado pela emissora; ele contradisse sua colega que, numa atuação digna de uma atriz ganhadora do Oscar, lacrimejou ao afirmar que o jornalismo daquela equipe era isento e compromissado com a verdade. De fato, a história provou tal mentira.

Sendo assim, a pessoa inconscientemente reproduz um sentimento compartilhado (estímulo/ indução) acreditando que é fruto de um pensamento seu. Isso, faz sentido? Não seria uma possível explicação para tanta gente tapada junta?

De qualquer forma, tal fenômeno não poderia ser usado pelas pessoas como desculpa por negligenciar seu senso crítico quanto a realidade da vida em sociedade, embora o façam indiscriminadamente - o que é explorado pelos manipuladores de massas.

Evidentemente, e para fazer justiça, tal fenômeno não é privilégio somente dos “Coxinhas”, mas acontece em qualquer tipo de cultura humana, haja visto, o próprio povo alemão ter sido induzido por um genocida e seu fiel escudeiro de propaganda de guerra ao esfacelamento social que desgraçou uma nação. Aliás, muito parecido com o que alguns órgãos públicos e a mídia marrom faz por aqui.

Motivação (indução) pelo medo...é o que eu penso. E isso, bloqueia nosso senso de percepção crítica. Destarte, acabaríamos agindo como peixes em cardume, o que é, outrossim, de um reducionismo impressionante, nada digno dos nossos 20 bilhões de neurônios. Ora, tal comportamento não é mais adequado às sardinhas e seu primitivo cérebro, ou, não...?
 
Por fim, e arrematando, a própria comunidade e mídia internacional se deu conta do golpe em curso que segue aqui no Brasil onde um governo formado por uma quadrilha de bandidos pretende solapar o poder de forma ilegítima numa armação digna dos filmes de grande orçamento de Hollywood.
Mesmo assim, ignorando tudo, o “Coxinha” se mantem fiel ao “seu ponto de vista” e não muda porque isso significaria reconhecer o seu erro diante daqueles que alertavam para a destruição da democracia no país. Isso se explica pelos estudos e pesquisas que identificaram um irresistível grau de comprometimento que o grupo impõe ao indivíduo que, então, cede subservientemente.

Concluindo, por trás da futilidade e vazio intelectual de um “Coxinha” se esconde um complexo fenômeno de síndrome de sardinha.

Raniery