sábado, 25 de janeiro de 2014

Rebeldia Reversa

Estamos ligados a tudo, a todos, e, a todo instante, em conexões cujo objetivo final é a sobrevivência. Daí se dizer que somos seres eminentemente sociais. Esta é a razão evolutiva para sermos assim.

Estudos científicos apontam para a evidência de que há um programa que roda em nosso cérebro nos impelindo à interagir. Nunca antes foi tão necessário quanto agora tais ligações, haja vista estarmos vivendo um momento de reversão anômala de nossa natureza, sobretudo, na civilizações ocidentais onde o materialismo exacerba a importância do ego.

Está idiossincrasia é no mínimo bizarra já que as organizações são criadas e controladas pelo homem com objetivos em comum para atender suas próprias necessidades e demandas, isto é, um meio para o fim e não o inverso. Estamos alimentando um paradigma "Frankenstein" que está se voltando contra nós. A muito já se observa o tecido social em farrapos contrariando nossa própria arquitetura neural. 

Para o filósofo francês Émile Durkheim "os fatos sociais devem ser tratados como coisas". Ele ainda forneceu uma definição do normal e do patológico aplicada a cada sociedade, em que o normal seria aquilo que é ao mesmo tempo obrigatório para o indivíduo e superior a ele, o que significa que a sociedade e a consciência coletiva são entidades morais, antes mesmo de terem uma existência tangível. Essa preponderância da sociedade sobre o indivíduo deve permitir a realização deste, desde que consiga integrar-se a essa estrutura.

Se existe alguma dúvida desta nossa natureza social basta observar o comportamento dos neurônios - espelho que se antecipam às reações de outra pessoa para criar a melhor resposta de empatia possível objetivando um processo de vínculo.

A cada nova descoberta da neurociência atualiza-se o conhecimento sobre a importância das interações sociais e de nosso papel em sociedade, reforçando a importância da inteligência emocional como ferramenta capaz de promover a coesão e harmonia social. 

Então, e diante disso, perceba a importância de um senso de coletividade que, em última análise, retorna à você como o produto resultante de sua contribuição no processo. Se a sociedade é forte o indivíduo por sua vez se beneficiará disso, mas o oposto não é um fato, pois onde poucos se beneficiam, em detrimento de muitos, o resultado é o desequilíbrio.

Prosperar ou enriquecer nada tem de mal desde que no processo toda a sociedade, direta ou indiretamente, ganhe com isso. O capitalista investe em um determinado mercado objetivando o lucro, que por sua vez gerará uma carga tributária ao Estado, criará postos de trabalho, cujos salários serão injetados no comércio dentro da engrenagem que alimentará a economia.

Mas, quando o sistema é sabotado por ações fraudulentas, seja do lado do Governo, ou do dono do capital, ou, de quem quer que seja, isto desestruturá todo um mecanismo cíclico e, por conseqüência, será sentido negativamente pela sociedade.

É possível concluir, a partir desta concatenação de raciocínios, que ações nocivas como as citadas, envenenam o meio social e deflagram inúmeros problemas, como por exemplo, a miséria, a violência e a desigualdade social. 

Pensando bem, nem é necessariamente uma discussão moral, mas pragmática mesmo, pois seus efeitos são, de fato, sentidos em suas manifestações. Ora, isso afronta a própria condição da vida humana, daí invocarmos oportunamente a força estatal em sua face jurídica para interferir, salvaguardando, o que ela mesmo tutela- a vida humana e sua dignidade.

O trabalho é condição de dignidade, pois sem ele temos dificuldades em subsistir. Se o homem é aviltado nesta sua condição pode se dizer que a própria sociedade o é também.

Para Durkhein a divisão social do trabalho está ancorada nos dois tipos de consciência que têm lugar nos seres sociais, a consciência coletiva e a individual. Afirmava que o desenvolvimento de uma é exclusivo em relação a outra, sendo o processo de predominância da consciência coletiva em relação à individual o processo de evolução das sociedades, ou de sua complexificação, como também denomina o autor. O filósofo encara está divisão como uma função social como a principal fonte de coesão e solidariedade nas sociedades modernas.

Perceba que o que vivemos hoje em termos de violação de direitos garantidos, em função da ganância de poucos e, que conceituou-se como assédio moral, pretende confrontar e até mesmo questionar, em primeiro lugar as leis naturais de nossa própria evolução e, consequentemente, o faz, aos meios legais, que a sociedade decidiu que protegessem seus valores por meio das mãos do Estado.

Pode-se dizer que os que alimentam está energia perversa são antinaturais à sua própria especie e natureza e, é claro, devem ser confrontados e dissuadidos exemplarmente. Se a sociedade é a soma de seus indivíduos e estes, por sua vez, compõem uma unidade representada pelo inconsciente coletivo, é evidente que este corpo deve reagir ao que é estranho e fagocitá-lo, eliminando a impureza promotora de doenças.

Um sistema de defesa ou anticorpo age eficientemente no combate ao risco que arremete o corpo infectado, da mesma forma, cidadãos conscientes de sua condição podem em cada esfera de influência de sua realidade agir analogamente, a não ser que atuem de forma autoimune, ou seja, contra seu próprio corpo e, aí, é desnecessária a própria doença para que este corpo sucumba.

A sociedade muda com a mudança de seus cidadãos que motivados a defendê-la são uma poderosa arma de transformação social. Isto, é muito mais que ser patriota, mas inteligir. Então, voltamos ao início de tudo, ou seja, toda a mudança começa com um simples disparo elétrico neural que se for comparado a um computador seria um dígito binário "1" e que pra nós corresponderia à palavra "sim" - à mudança, ou melhor, ao retorno do que nos é natural.




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quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

A Origem Do Assédio Moral

Entender o que é assédio moral é o primeiro passo que se dá para aprender a combatê-lo. 

Por incrível que pareça isso não é coisa nova, mas acompanha o homem desde que decidiu se organizar em grupos sociais e trabalhar. Então, por que é um assunto tão desconhecido, ou melhor, somente agora decidiram discutí-lo? Na realidade tudo gira em torno de sua intensificação e banalização descaracterizando seus fatores como inerentes ao universo laboral. É como se tudo fizesse parte de um contexto que se deveria aceitar.

Muitos imaginam que o termo deriva do meio jurídico, porém foi o resultado de estudos científicos, inéditos, até então, no âmbito da psicologia e os principais expoentes destas pesquisas foram Heiz Leymann, Marie-France Hirigoyen e Harald Hege, ou seja, simplesmente três dos principais precursores da tese do assédio moral. No Brasil temos a Dra Margarida Barreto que, de fato, contribuiu, e muito, para o início dos debates e reflexões sobre o tema à partir de 2000 através de sua dissertação de Mestrado em Psicologia Social defendida na PUC/ SP, sob o título "Uma jornada de humilhações".

De lá pra cá, houveram avanços significativos que, aí sim, impactaram o mundo do Direito, sobretudo fornecendo uma sólida base de conhecimentos sobre este subtipo de violência que vêm refletindo nas decisões dos julgados inserido dentro dos chamados danos morais, que conforme o STJ são aqueles que "afetam a personalidade e, de alguma forma, ofende a moral e a dignidade da pessoa. Doutrinadores têm defendido que o prejuízo moral que alguém diz ter sofrido é provado in re ipsa (pela força dos próprios fatos). Pela dimensão do fato, é impossível deixar de imaginar em determinados casos que o prejuízo aconteceu – por exemplo, quando se perde um filho."

Perceba que, até que esses especialistas decidissem pesquisar sobre o assunto não havia nada, em termos científicos, que o decodificasse. A partir de então tornou-se objeto da atenção interdisciplinar de inúmeras áreas correlatas e a cada dia esclarece de forma pragmática o tal fenômeno.

Acontece que nem por isso o assédio moral deixou de ser complexo, de difícil elucidação, um desafio a se superar dado aos inúmeros fatores intervenientes que alimenta uma cadeia de eventos que o mantêm como prática institucionalizada nas organizações.

De fato, é uma batalha de toda a sociedade que à medida que conhece seus direitos e os faz prevalecer, não se culpando ou se deixando culpar por isso que a realidade vai paulatinamente se transformando. O grande problema é o paternalismo que impregna as instituições e a política cujos sistemas arcaicos enraizados em um tempo onde uma elite se sustentava à custa de um povo explorado se agarra a modelos ultrapassados. Junte a isso os objetivos de um capitalismo globalizado em evidente colapso e entenda como funciona toda esta engrenagem. E, se quiser adicionar mais um elemento negativo aloque todo este contexto em sistemas corrupto/ corruptores e encontrará o habitat fértil e propício para as demandas que o assédio moral exige.

Coincidentemente, um dos primeiros efeitos que acometem que passa por esta violência é o da confusão. Se há algum conforto nisso está em saber que se o especialista teve enorme trabalho em decifrar o padrão por trás do fenômeno, imagine a vítima que sequer possui os recursos e ferramentas para entender isso e se vê, da noite para o dia no meio de um turbilhão acontecimentos aparentemente desconexos, subjetivos, subentendidos, de difícil interpretação, sob ataque e perseguição baseados apenas na frieza e covardia antiéticas de um assediador moral.

Em estado de plena defesa, sob a influência de mecanismos ansiolíticos, o trabalhador vê sua autoconfiança e motivação esvaziada e passa a demonstrar queda em seus níveis de produção. Tudo meticulosamente articulado pelo agressor(es) que de forma privilegiada detém a força da organização para vencer os estados naturais de resistência humanos.

É uma questão de tempo, pensa o assediador. Hoje ou amanhã o trabalhador(a) será demitido, adoecerá e se tornará improdutivo e, portanto, desnecessário, ou, melhor ainda, pedirá demissão, afinal de contas, quem em sã consciência aguentaria tanta humilhação (?), arquiteta o agressor.

Dentro do processo, algumas coisas são importantes pra quem assedia: a imobilidade, a inércia e, claro, a intimidação. É preciso criar a ilusão de superioridade e invencibilidade na mente da vítima para poder levar vantagem sobre ela. Se prendê-la por dentro, isto é, em seus mecanismos psicológicos, a batalha está praticamente ganha.

Outro fator de suma importância para assediadores é a garantia de que tudo fique no subentendido e que não se consiga provar que há uma violência com lesão de direitos em curso. Se faz uma espécie de jogo teatral onde o assediado passa a atuar contra sua própria vontade e ainda é penalizado por isso. Aliás, nesse jogo é importante a inversão, ou seja, projetar sobre a vítima o carma da culpabilidade para que se justifique os ataques disfarçados de controle disciplinar.

Quem passa por isso precisa identificar tão logo o funcionamento desta lógica inversa que agirá desproporcionalmente a tudo o que fizer. É preciso entender que será questionado porque se quer descartá-lo. Suas habilidades, competências, qualificações, tudo, será minimizado para que se encaixe em um perfil demissionário. A pressão pretende induzir aos erros que aumentarão vertiginosamente ainda que não existam, enfim, a antiéticas será levada amores nível mais extremos.

Dar visibilidade é uma das melhores estratégias que se pode utilizar, mas nem por isso uma solução definitiva. Sendo assim denúncias anônimas ao MPT, MPE, e outros órgãos podem produzir algum resultado. Evidentemente acirrará o animo do agressor, mas de qualquer forma quem está na fogueira, a esta altura já se encontra chamuscado e não muda nada, afinal, o assediador já havia decido pela agressão.

Em nove anos de assédio moral eu aprendi alguma coisa. Nem tudo que li ou fui orientado funcionou. Outras ações que fui desaconselhado, por outro lado surtiram melhores efeitos. Levando em consideração o fato de ser empregado público e contar com algumas prerrogativas inerentes ao cargo, eu diria que cada situação exige uma avaliação própria.

 Não sei, por exemplo, se ficar passando por isso tanto tempo é a melhor coisa a se fazer. Talvez, se houver uma forma de trocar de emprego seja uma saída inteligente. Vai exigir oportunidade, qualificação e decisão. Não fiz isso por uma questão de indignação e decidi pelo confronto mesmo baseado no critério de minha legítima conquista da vaga através de concurso público. Mas, eu diria que melhor que estar hoje aqui escrevendo sobre isso seria não ter passado por esta experiência.

Por outro lado, o estrago causado na vida dos assediadores locais é algo que não tem preço. A vergonha que passaram por não conseguirem me inibir e me submeter. Ter chamado a atenção de órgãos fiscalizadores da lei sobre seus atos e o melhor, testemunhar colegas de trabalho se encorajarem pra enfrentar os abusos cometidos faz com que me sinta orgulhoso de ter participado de um  processo de mudança que ainda está longe de se cristalizar, mas que demonstra evidências de melhora. O maior indicador? Os novos colegas de trabalho que sequer tem a noção dos abusos que se cometiam. 

 Ser vítima de assédio moral com certeza mexerá com toda a estrutura do assediado. Haverá várias fases pelas quais passará e no fim ficará um saldo que dependerá de cada um. Teve um momento que isso se tornou um tormento pra mim. Hoje, não! Estar ou não abalado psicologicamente já não é mais prerrogativa para se caracterizar o assédio moral, isso, de fato, dependerá da arquitetura emocional de cada pessoa.

Uma coisa não mudará. O conhecimento e a fomentação do debate e reflexão sobre o tema somado à sua disseminação ainda são a melhor forma de se combater o assédio moral. 


Raniery

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terça-feira, 14 de janeiro de 2014

I Am Weasel

Dia desses fui ao Guarujá passar um fim de semana e ao voltar pra casa comecei a observar o comportamento das pessoas que de forma arrogante faziam no trânsito algo muito parecido com aqueles países onde dirigir se assemelha a um verdadeiro caos.

Durante o passeio foi tocado num assunto sobre uma área de preservação ambiental que fora solapada pelos vereadores locais que possuíam informações e poder privilegiados para mudar as leis e, evidentemente, mudaram as diretrizes locais para, então, comprar os lotes e, isso, claro, na calada da noite. Aliás, o que falar de todo o lixo que é produzido pelo litoral brasileiro afora detonando todo o meio ambiente?

Ao mesmo tempo que reparava nas enormes mansões não pude deixar de reparar que o serviço público por lá é precário e me perguntei sobre a dimensão e impacto da corrupção local sobre a vida dos munícipes que inertes aceitam isso passivamente.

Por outro lado, tive que reconhecer que a submissão aos inescrupulosos e a adesão aos seus valores não é privilégio dos guarujaenses ou mesmo relacionado a alguma classe social. E, se você adere ao que é destrutivo e predatório não se sentirá à vontade com a sua consciência para reclamar quando isso te atingir.

Esse episódio me chamou a atenção para uma faceta da característica humana que responde por inúmeras mazelas mundo afora: a arrogância. Sob o domínio e controle do ego nos parecemos com animais selvagens e, como gado em disparada, atropelamos tudo a nossa frente sem medir as consequências de nossos atos, somente nos importando com nossos umbigos.

Uso o meu trabalho como referência, pois lá, os fatores que permitem que gente assim se prolifere são inúmeros e é objeto das observações de todos aqueles que não aceitam tais posturas antiéticas. É claro que é também uma parcela da realidade em que estou inserido, mas também é uma amostra do que ocorre pelo Brasil. Lá a arrogância e prepotência das pessoas extrapola os níveis aceitáveis dos lugares em geral.

Isso me lembra de um desenho animado dos stúdios Cartoon Network. Tem um personagem cujo nome é Máximo. A cada situação que motiva sua intervenção ele repete o bordão: " Eu sou o máximo". O engraçado que se trata de uma doninha que possui um senso superlativo de si e vive buscando os aplausos e admiração das pessoas. Agindo como o famoso agente da série Macgyver faz de tudo e encontra solução pra todas as coisas. Conhece Física, Filosofia, Matemática, Engenharia etc. Tudo ele sabe e, portanto, pode resolver qualquer problema desde que no fim ouça os aplausos.

O curioso é que encontro a encarnação deste personagem por lá onde trabalho. O camarada é o todo poderoso, o imprescindível, o insubstituível...o máximo! Sua opinião é a única que vale, seus tantos anos é que contam e não consegue se dar conta de que não passa de uma caricatura desatualizada em um mundo que está em frenética mudança.

Como são pessoas que se apossaram da coisa pública para usá-la em seu proveito encerram-se em suas fortalezas de pretensa superioridade projetando em cada sombra a ameaça de seus atos desonestos. Desta forma, qualquer um que aparentar alguma ameaça que os faça perder a oportunidade de parasitar a empresa será devidamente descartado. Sendo assim, em cada setor há alguém estrategicamente colocado para garantir que a engrenagem de um esquema sórdido continue girando à favor daqueles que sugam o interesse público.

Mas, pense: por que é que nós, seres humanos, nos achamos a última azeitona do pastel? O que é que nos faz acreditar que somos grandes coisas? O poder econômico, político, físico? Quanto tempo de vida, em média temos? Sessenta, setenta, ou, um pouco mais? Somos um sopro na existência. Ainda mais, em um universo de bilhões de anos. E, aliás, em relação à sua dimensão sequer somos tão significantes assim.

Que o sol, nossa estrela, e responsável pela manutenção da vida é gigantesca em relação à Terra, já sabemos, mas num universo vastíssimo e, ainda inexplorado há corpos celestes que desafiam nossa imaginação como a estrela VY Canis Majoris, maior estrela conhecida, hipergigante vermelha localizada na constelação do Cão Maior, faz nosso planeta parecer um grão de areia. A estrela tem o volume de dois bilhões e 940 milhões de Terras.

Mas, se pensamos que coisas gigantescas seriam suficiente para ligar nosso painel de bom senso que dizer de seres microscópicos, invisíveis a olho nú, mas que podem nos devorar em menos de 24 horas. A cada dia surgem inúmeros tipos de super-vírus e superbactérias resistentes aos antibióticos que evoluem no mesmo compasso que a indústria farmacêutica e que desafiam as mentes mais brilhantes e seus poderosos centros de pesquisa matando milhares de pessoas por todo o globo.

Nada disso, porém, é suficiente para coçar a consciência de seres humanos que se acham o centro do universo, intocáveis, inatacáveis, que se endeusaram em rituais de narcisismos e autoglorificação. Se achando onipotentes, onipresentes é eternos andam por aí como se ao toque de seus dedos tudo e todos os adorarão. Mas, conforme o autor de Eclesiastes (3:19) disse: "Porque o que sucede aos filhos dos homens, isso mesmo também sucede aos animais, e lhes sucede a mesma coisa; como morre um, assim morre o outro; e todos têm o mesmo fôlego, e a vantagem dos homens sobre os animais não é nenhuma, porque todos são vaidade." Aliás, pra onde essa gente vai de nada adiantaria levar toda riqueza conquistada por meios sujos, mas terão que prestar conta disso de qualquer forma. Cada um com os seus problemas, não é?

E assim caminha a humanidade que mais parece que está revertendo os processos da evolução, tanto que vendo um documentário na TV a pesquisa buscava demonstrar o quanto somos parecidos com nossos parentes primatas do ponto de vista comportamental. É triste pensar que abrimos mão de nossa vantagem evolucionária, com um cérebro mais complexo, consciência de si para nos nivelar a chimpanzés levados e dominados por nossos egos.

Quem sabe o caminho de volta aos eixos não seja a humildade, coisa muito difícil de desenvolver em uma sociedade consumista, movida por valores superficiais que prometem a felicidade sem, contudo, poderem cumprir, já que é algo que não se encontra fora de nós, isto é, em coisas ou objetos, mas dentro de nós.

Olhando pra trás nesses anos em que fui submetido ao assédio moral em meu trabalho, o que enfrentei, de fato, foi esta falha de caráter do lodo humano que se criou naquele lugar. Pensando bem, eles sequer sabiam que estavam assediando, de certa forma, mas estavam sendo eles mesmos, daí ficarem indignados quando me recusei a aceitar os abusos cometidos. Mas, hoje, os pobrezinhos de espírito estão bem instruídos de que sua inadequação social não os isenta da culpa, ou melhor, dolo.

Portanto, se conclui que a arrogância é um fator determinante em muitas situações da dinâmica humana que temos dificuldade em controlar seja em nós, muito menos nos outros. Não significando dizer que é justificativa para que aceitemos abusos decorrentes de tal distorção de caráter, mas nos possibilita entender como ocorrem determinados processos e que providências devemos tomar uma vez detectado a subjetividade por trás deles.

Acredito que reconhecer a arrogância seja de que lado for exige de nós uma dose de humildade e como diz o mestre: "Porquanto qualquer que a si mesmo se exaltar será humilhado, e aquele que a si mesmo se humilhar será exaltado." Lucas 14:11


Leia também: Por que nós juízes somos arrogantes


Raniery

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quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Realidades

Como vemos o mundo, tem muito a ver com nossa capacidade de percepção, isto é, de como utilizamos os filtros mentais para chegar a alguma conclusão da realidade.

Esses filtros mentais são como lentes que captarão as impressões que temos de tudo ao nosso redor. Eles são construídos pelos anos afora desde nosso nascimento.

Sendo assim, preconceitos, pressuposições, ego, projeções, frustrações entram na construção destas habilidades que nos farão perceber o ambiente. E por aí já deu pra ver que dificilmente enxergamos o mundo como ele é de fato, mas conforme as interpretações que fazemos dele.

Um chefe me disse uma vez: " quando eu vinha para falar com você já me armava de tanto que diziam a seu respeito". Não era uma conclusão dele. Era uma percepção terceirizada que bloqueava sua própria capacidade de me avaliar. Somente quando ele decidiu ver por si mesmo quem eu realmente era é que pode tecer suas próprias conclusões, incluindo qualidades e defeitos que possuo como todos nós.

Eu costumo dizer que nosso cérebro gosta de preencher lacunas. É cômodo, fácil, rápido e, se tiver alguém em especial no foco da situação, um gostinho de intriga, afinal, que gostoso é detonar alguém que invejamos e nos ameace. É, ou não é, hein? Aliás, pergunte a um invejoso se ele se vê assim. Nunca conheci alguém que admitisse ser um. Não é engraçado?

Veja os conflitos que ocorrem no ambiente do trabalho, por exemplo. Sempre tem alguém de que não simpatizamos, ou, ao contrário, gostamos mais. É gente de todo tipo. Seres humanos como eu é você, mas, com mais defeitos que eu, claro. Preencha questionários de pesquisa para admissão onde tenha que apontar defeitos e qualidades e sinta como é difícil achar defeitos em si mesmo.

Agora, pegue está miríade de fatores, coloque um monte de gente em processo de produção, chame isso de trabalho e dê ao local o nome de empresa. Pronto! É um prato cheio para o conflito. Pra melhorar, infle o ego das pessoas e tenha opinião própria e divergente delas- acabou de arrumar inimigos.

Pegue um chefe autoritário, que acredita que sabe tudo sobre tudo, dentro de uma organização arcaica ou cujos valores estejam alicerçados sobre bases onde fins justificam meios, seja você mesmo e ouse não abaixar a cabeça para o, então, macho alfa e...bingo! Acabou de entrar para o clube dos assediados moralmente. Seja muito "mal vindo"!

Agora, os nossos filtros são competitividade, metas, flexibilidade, qualificação-isto para empresas particulares; nas públicas, temos corrupção, esquemas, fraude, feudo etc. São lugares onde a realidade não somente é subjetiva quanto relativa. A cada segundo um universo novo surge dependendo de quem assume (o cargo).

Nesses dias, por exemplo, um chefe me constrangeu na frente de um colega alegando cobrança disciplinar em um ponto de menor importância em relação a outros muito piores. Ele mesmo, em outra ocasião veio me contar de uma funcionária que havia batido seu ponto e ido para casa, só voltando à empresa ao fim do dia para efetivar sua saída. Este fato sim, é grave, mas foi negligenciado pelo disciplinador chefe. Então, vemos aqui o chamado dois pesos e duas medidas. O mesmo tratamento que me fora dado, por exemplo, não é oferecido ao filho de um outro chefe que mais parece um pano de chão humano dado a sua dependência química, enfim, são percepções.

E quanto ao inverso? Quando se sofre a agressão? Da mesma forma o conjunto de filtros que desenvolvemos interferirá, muitas vezes superdimensionando, em alguns casos, os fatos, ou mesmo a capacidade do agressor em nos prejudicar. Sob o stress dificilmente conseguimos dimensionar toda a dinâmica que se desenrola durante o processo de assédio moral.

Se o diagnóstico piorar ocorrendo dano psíquico não é preciso ser médico pra saber que definitivamente a realidade não será vista com objetividade. E perceba, então, o quanto o assédio moral é danoso se pensarmos que possui uma capacidade de alterar a realidade percebida.

O agressor sabe que estimulando os sistemas de defesa da pessoa bloqueará sua capacidade de ler o ambiente com precisão, ou melhor, próxima do real. A conclusão é que nesses casos a melhor coisa a fazer é recuperar a razão e buscar entender como se processa a violência. O que, definitivamente não é fácil.

Se eu me enxergar como vulnerável emitirei uma mensagem ao agressor que o incentivará a atacar. Portanto, alimentar seu sadismo com o medo não é a melhor coisa a fazer, mas é o que acontece, daí o índice de sucesso apontando favoravelmente aos assediadores.

Seja como for, independentemente dos mecanismos de percepção intrínsecos de cada parte (agressor/ vítima), fato é, que o assédio moral não deve ser justificado sob hipótese alguma, muito menos sob quaisquer justificativas. É por isso que uma sociedade se estrutura em direitos e deveres normatizando o comportamento humano para que cada um não faça aquilo que quer em detrimento do direito alheio.

O Direito não pode se dar se dar ao luxo de esperar que o ser humano passe por um processo de auto reflexão de sua consciência aguardando uma mudança interior, por isso transfere está tarefa a outros setores da atividade humana como a religião ou a moral. Muito melhor seria se nós seguíssemos um caminho consciente por iniciativa, mas, como sabemos, isso não acontecerá.

A realidade muda com a mudança da mente. Se cada um de nós parar um momento e olhar pra dentro de si mesmo, identificar pontos a melhorar e se propor uma mudança, mínima que for, talvez começamos a mudar alguma coisa no mundo. É uma mudança de percepção. 


Raniery

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