segunda-feira, 6 de abril de 2015

Banalidades

Totalitarismo (ou regime totalitário) é um sistema político no qual o Estado, normalmente sob o controle de uma única pessoa, político, facção ou classe social, não reconhece limites à sua autoridade e se esforça para regulamentar todos os aspectos da vida pública e privada, sempre que possível. O totalitarismo é caracterizado pela coincidência do autoritarismo (onde os cidadãos comuns não têm participação significativa na tomada de decisão do Estado) e da ideologia (um esquema generalizado de valores promulgado por meios institucionais para orientar a maioria, senão todos os aspectos da vida pública e privada).
Fonte: C.C.W. Taylor. “Plato's Totalitarianism.” Polis 5 (1986): 4-29. Reprinted in Plato 2: Ethics, Politics, Religion, and the Soul, ed. Gail Fine (Oxford: Oxford University Press, 1999), 280-296.

De acordo com essa definição tanto faz fundamentar através do exemplo da Alemanha Nazista quanto do Brasil sob o golpe de 64, pois ambos apresentam as mesmas propriedades e, de fato, guardado as devidas proporções, praticaram os mesmos atos de barbárie contra a humanidade, no entanto, aquele o praticou contra inúmeros povos e nações, já este o fez dentro de seu próprio domicílio territorial.

Mas o que eu gostaria mesmo de chamar a atenção é para o sentido que o mal adquire dentro desta configuração burocrática e sistemática, onde regras e normas são deturpadas, ou melhor, destituídas de valor e onde o legalismo adquire um status neutralizador da consciência levando seus elementos humanos a deixar de pensar tornando-se desta forma idiotas programados. A coisa é tão complicada que desgastados nos vingamos fazendo piada da situação.

A primeira vez que se deu conta e se identificou um tipo de mal destituído dos estereótipos clássicos foi por volta dos anos 1960 pela filósofa Hanna Arendt por conta do julgamento do criminoso de guerra nazista Adolf Eichmann.

Perplexos, os envolvidos em tal processo ficaram atônitos com as declarações do criminoso que não admitia a culpa por seus atos sob a afirmação de que cumpria ordens. Sistemático e eficiente era o responsável pela logística de deportação dos judeus aos campos de concentração com destino certo: alimentar a máquina de morte do Fürer.

Investigações apontaram que Eichmann era o protótipo do homem moral- Bom pai e marido, excelente funcionário público, irmão zeloso, enfim...um homem de bem. Hanna Arendt quando identifica este perfil fica chocada, pois se esperava encontrar um monstro degenerado, um psicopata frio e perverso, um antissemita radical, mas não! Isso, no entanto, é mais assustador do que a ideia de um mal radical, pois se origina de pessoas comuns, incapazes de se conscientizar de seus atos, entorpecidas pelas regras do sistema ou de ordem moral do grupo em que se encontram.

Foi nesta época que, pela primeira vez, Hanna Arendt cunha o termo "banalidade do mal" como sinônimo da aceitação irracional e tida como normal de atos de maldade humanas.

Hannah Arendt afirma que banalidade não significa uma bagatela nem uma coisa que se produza frequentemente (Souki, 1998, p. 103). Arendt distingue banal de lugar-comum (Assy, 2001a, p. 143). Lugar-comum diz respeito a um fenômeno que é comum, trivial, cotidiano, que acontece com frequência, com constância, com regularidade. Banal, por sua vez, não pressupõe algo que seja comum, mas algo que esteja ocupando o espaço do que é comum. Um ato mau torna-se banal não por ser comum, mas por ser vivenciado como se fosse algo comum. A banalidade não é normalidade, mas passa-se por ela, ocupa indevidamente o lugar da normalidade. “O mal por si nunca é trivial, embora ele possa se manifestar de tal maneira que passe a ocupar o lugar daquilo que é comum.”

Percebi isso em pelo menos dois episódios neste ano. Um por ocasião de manifestações contra o atual governo- originária de grupos reacionários, contrários aos parâmetros constitucionais e, que manipulam a opinião pública por meio das redes sociais, deflagrando o ódio como ideologia, querendo se impor pela ilegitimidade. E outro momento veio de dentro da empresa pública onde trabalho e que deflagra um processo exaustivo de assédio moral que se utiliza dos mesmos mecanismos totalitários que os nazistas utilizaram para exterminar judeus.

Com roteiro e personagens completos tenho o privilégio (?) de experimentar na pele as teorias de Arendt. O curioso é que quando se olha pras pessoas envolvidas surge a estranha sensação de que o que fazem é oriundo de uma mente perversa, mas após tanto tempo e confrontando os discursos chego à conclusão de que são apenas burocratas idiotas, incapazes de reagirem por si mesmos, presos em algemas (que chamam de doutrina) e, conforme me disse certo chefe, são escravos das regras.

Dia desses, e de forma surpreendente, um chefe esteve em meu posto e solicitou um momento pra conversarmos. Quero registrar aqui um elogio à atitude, cujo resultado proporcionou por meio de uma conversa franca o esclarecimento de pendências decorrentes desta bola de neve que se tornou tal processo. Aliás, há um desgaste mútuo e a manifestação de saturação de ambas as partes- o que prova que o assédio moral não é bom pra ninguém, nem mesmo pra quem o deflagra. Como resultado se percebeu que tudo se originara da manipulação do sistema e que por falta de comunicação a coisa perdeu o controle e ganhou vida própria- não quero dizer, com isso, que o que se fez está justificado, mas demonstrar que quando se deixa de refletir ou de se confrontar os personagens e seus discursos pode-se criar um circuito que se auto alimenta.

Entre os exemplos mais emblemáticos que identifico na banalização do assédio moral que ocorre comigo está o de um dos elementos que compõe tal sistema que apresenta as mesmas características de Eichman. Essa pessoa sintetiza bem o mal idiotizado e irracional, pois, se num primeiro momento confunde, no outro, as peças se encaixam perfeitamente dentro das ideias de Arendt.

Com vozinha doce, gestos delicados, sorriso no rosto e ar angelical você diria estar diante de um anjo e não de uma burocrata incapaz de pensar por si própria. Fora me dito que ela é uma escrava das regras como se isso justificasse ou a tornasse menos culpada. Pelo contrário, já que a própria lei, ou melhor, o Princípio da Legalidade afirma que ninguém é obrigado a fazer ou deixar de fazer nada a não ser por lei; No entanto, essa pessoa encabeçou um processo administrativo onde as provas foram fraudadas para me prejudicar e me fora dito que ela seguia ordens.

Então, veja você, que mesmo uma pessoa dada como “boa”, no sentindo moral do termo, pode vir a cometer injustiças nefastas e sequer ter a consciência afetada por isso, pois segundo ela- “seguia ordens”- e, como diz o jargão: “Manda quem pode, obedece quem tem juízo!”...estaria tudo certo adotar qualquer atitude (legítima ou não). Aliás, quem utiliza jargões como proposições argumentativas, não somente incorre em erro lógico (já que jargão não é nem proposição nem argumento) como demonstra uma extrema e enferma preguiça de pensar por si mesmo.

Dito isto, concluímos que temos uma nova categoria de assediador que não se pensava existir: o do idiota burocrata que não é mal, na acepção da palavra, mas que faz o mal, na prática; e, nem se dá conta disso, pois o faz por ser programado. Não tem personalidade, vida própria, capacidade de resistir à ordem ilegal, enfim, uma marionete nas mãos daqueles que manifestam uma patologia perversa, o que, convenhamos, não alivia em nada a gravidade dos fatos e, na prática, é outra versão de uma mesmíssima coisa.


Perceba você, que é leitor deste Blog, como é difícil lidar com isso, sobretudo, quando se vai ingressar com ações judiciais, pois lá, é tudo muito formal, escrito, dito e depende do convencimento do juiz- que deveria ser imparcial, ler tudo que está contido na argumentação de defesa e, o que é pior, ter em suas mãos a decisão sobre algo que afeta uma pessoa que sofre tal agressão. 

De qualquer forma, se descobre novas facetas do mal que não se sabia existirem; percebe-se que há sim, uma institucionalização da perversidade (que é eficiente) e que, da mesma forma que ocorreu com os exemplos de totalitarismo, é uma luta que se trava nas trincheiras do dia a dia.
Assista: Eichman: a solução final
Raniery



raniery.monteiro@gmail.com