quarta-feira, 30 de maio de 2012

Se arrependimento matasse!


O conflito é decorrente das interações humanas desde que o homem existe. Faz parte de nossa natureza e decorrência da vida em grupo. 

No mundo laboral a competitividade é mola mestra destas relações pelo atrito. Muitos querendo a mesma coisa que em geral é escassa ou restrita. Desde que usada de forma saudável (pela competência) é até bom, para que não gere comodismos. Mas, na prática não é assim. Numa inversão ou distorção de valores prevalece a lei do traiçoeiro e covarde, sobretudo em ambientes favoráveis a este tipo de prática medíocre. E isso, não vem de hoje.

Se o conflito ocorre da vida em sociedade, portanto em sua extensão, na laboral, então, é praticamente uma regra. Não importa o nível sócio cultural ou grau de função hierárquica, lá está o antagonismo. Mas, o meio corporativo finge que isso não existe e permite que as pessoas se digladiem entre si. Em alguns ambientes mais que em outros, é verdade.

Ocorre com todo mundo e ocorreu comigo inúmeras vezes em vários lugares e as coisas se resolveram naturalmente de forma melhor que outras, dadas as respectivas condições. Penso que não sou diferente da maioria das pessoas com traços de personalidade similares como, por exemplo, o de emitir minha opinião, sobretudo em um país livre e democrático. É bem verdade que determinados ambientes laborais não aceitam isso de forma tão passiva e o encaram como uma afronta, pois “quem eu penso que sou pra pensar”, dizem eles.

Pois bem, em determinado momento do meu atual emprego, tive um atrito com um colega que, na época, decidiu expor a situação em uma página de uma rede social pra mobilizar a opinião do grupo contra mim. Angariou apoio de pessoas que se sentiam ameaçadas por meu jeito de ser, e, a coisa saiu de controle conforme tinham a intenção, o que deflagrou o processo de assédio moral pelo qual passo. Uma característica bastante evidente foi o vetor de motivação que os alimentava: a inveja. De forma oportunista, aproveitaram da situação pra incitar os superiores contra mim, manipulando-os de forma até surpreendente, e, eles caíram. 

Uma dos momentos que me chamou a atenção foi que entre os moderadores encontrava-se um que é a síntese da hipocrisia e bossalidade humanas, pois, vinha com discursos religiosos citando a Bíblia na tentativa de converter os pecadores à salvação, mas que se comportou como verdadeiro ser rastejante que vive em ambientes pútreos, como as lacraias, bichos que gostam de ambientes insalubres, se escondem embaixo de folhas e troncos podres, ou em lugares que ofereça matéria em estado de decomposição. Tem até música de gosto duvidoso pra esse bicho.


Gente traiçoeira que por coisa fútil se levanta todos os dias pra causar o mal a seu próximo. São seres sem consciência que amam a intriga, a destruição moral de colegas e se comportam como bestas humanas.

Mas, se fizeram tudo isso, foi por que se sentiram motivados ou apoiados para tal. Lembro-me que o citado quilópode se sentiu muito à vontade pra delatar que seus chefes o protegeriam de qualquer punição, o que de fato ocorreu e que por isso estão tendo a maior dor de cabeça ao enfrentar uma ação judicial na justiça do trabalho. Eu só não sei se foi muito inteligente, até porque nenhum daqueles que iniciaram este processo teve que sentar na sala de audiência pra prestar esclarecimentos à juíza, e sim o preposto que responderá por tudo. Ao que parece passar a mão na cabeça de bicho peçonhento dá nisso mesmo: muita dor e transtorno. Se fossem punidos lá atrás, tudo tinha se resolvido. Quem sabe, da próxima vez estes “chefes” aprendam a fazer a lição de casa e não se aborreçam mais, né?

Toda esta confusão e embrólio me lembra de dois personagens do filme “Sob controle” onde policiais praticavam abuso de autoridade contra cidadãos que transitavam pela estrada local. Amparados pela impunidade e pelas precárias condições da delegacia local da pequena cidade faziam todo tipo de irregularidades e crimes apoiando-se na truculência e pela farda da polícia. Intimidavam, humilhavam, dominavam as pessoas de forma covarde sabendo que estas estavam em pânico e impotentes pra reagir. Só que outros acontecimentos os levaram a repensar seus paradigmas e se arrependeram amargamente.

Tal quais os policiais corruptos a quadrilha que se instalou na empresa que trabalho sentia-se livre e potente pra cometer todo tipo de injustiça e perseguições, tanto que causaram a demissão de dois colegas, sendo que, de um, fizeram questão de destruir até sua família.

Obviamente que me prontifiquei em testemunhar à favor do colega e isto os irritou profundamente. Lembro-me que eu ainda estava afastado pelo setor previdenciário me tratando da depressão quando fui à empresa solicitar a cópia de um documento pra colaborar no processo e ouvi da chefe do RH e de um lacaio seu que “se eu estava louco pra trabalhar, também o estava pra testemunhar” (se referiam à depressão)e me disseram que tinha um inquérito sendo movido contra mim por mau comportamento e que eu seria punido de qualquer maneira. Hoje sei que a ideia era a de me demitir por justa causa alegando mau procedimento, ironicamente imputando a mim exatamente o que eles são, numa manifesta projeção. 

Na época me lembro que os envolvidos pela difamação que culminou com a demissão do colega mentiram descaradamente pro grupo dizendo que não estavam envolvidos na questão e por que eu os desmenti foram orientados pela chefia com o apoio do RH  a forjar um inquérito contra mim. Mas, isso também não foi novidade, já que eles inventaram a tal irregularidade que culminou com a demissão de um pai de família.

Incrivelmente estas pessoas usam a coisa pública pra disseminar todo mal e perversidade que manifestam internamente. Ocorre que isso é condenado pelos princípios da administração pública que prevê, inclusive, sanções pra esta modalidade de improbidade administrativa. 

Hoje, decorridos pouco menos de sete anos fico imaginando se eles achavam que seria desta forma tão trabalhosa destruir alguém. Não fosse pelo fato de passar a encarar a coisa do ponto de vista psicológico e de ter adotado medidas como a denúncia ao MPT e a ação que pleiteio na justiça trabalhista, é bem provável que os agressores teriam tido sucesso. O que me dá orgulho é que nesse momento o menor dos problemas deles sou eu. Na realidade enquanto estão olhando pra mim esquecem-se de que outros estão vindo fora o que a procuradoria está investigando.

Pois, é. Na vida de um agressor, bom é que não haja resistência ou visibilidade. Não compensa ter todo este trabalho, sendo que o “gostoso” do assédio é devorar a vítima sem implicações. Quem sabe assim as empresas não comecem a cobrar posturas éticas de seus empregados e decidam agir pra coibir este tipo de situação em seus ambientes, não é mesmo?


Raniery
raniery.monteiro@gmail.com

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Assédio moral - A importância da prova

Tem por objetivo estabelecer a importância da produção de provas para se provocar o Judiciário em pleito de reconhecimento do assédio moral no ambiente de trabalho e consequente indenização pelos danos morais e/ou materiais gerados.

No mundo jurídico o tema “prova” é de essencial importância. Nada pode ser movimentado na Justiça, nada pode ser pleiteado em juízo, se o destinatário do direito não possuir o mínimo de aporte probatório necessário a comprovar o direito alegado.

Até mesmo nas hipóteses clássicas onde a lei estabelece a inversão do ônus da prova (Lei nº 8.078/1990 – art. 6º, VIII, por exemplo), não significa dizer que o julgador decidirá exclusivamente com base nas meras alegações do autor da ação, tendo este que demonstrar inicialmente a verossimilhança de suas alegações. Na hipótese, por exemplo, da responsabilidade civil objetiva, atribuída ao Estado pelo art. 37 § 6º da Constituição Federal, terá o terceiro prejudicado que demonstrar, através de provas, a lesão por ele suportada (moral e/ou material) além da relação de causalidade entre esta e a atuação do Estado, ainda que independente de ter sido esta dolosa ou culposa.

Desta forma, meras alegações sem nenhum suporte probatório, direto ou indireto, não possuem o condão de consagrar direitos pleiteados. Trata-se, pois, de regra básica atinente ao Estado Democrático de Direito, pois estaríamos diante do caos jurídico se houvesse tal possibilidade, onde uma pessoa simplesmente alegaria determinado fato e se revestiria automaticamente dos benefícios a ele correlatos.

Levantamos esta importante questão em razão da posição do representante de um Sindicato, que comigo participou de evento que discutia o assédio moral no ambiente de trabalho. Após minha intervenção, onde alertava aos presentes acerca da importância da vítima do assédio moral angariar todas as provas possíveis que possam demonstrar a formatação do fenômeno e suas conseqüências, o sindicalista que participava dos debates manifestou sua discordância com minha posição, conclamando a todos que se sintam vítimas de assédio moral a recorrer ao Judiciário, ainda que não tenham nenhum tipo de prova, o que segundo ele seria “visto durante o processo”.

É certo que o TST já decidiu que o ônus da prova no Direito do Trabalho não cabe necessariamente à parte que alega o fato (RR 649939/2000). No entanto, tal decisão deve ser aplicada somente quando a parte contrária é detentora de documentos ou informações que comprovam as alegações da reclamante, não estando ao alcance deste. São casos típicos relacionados a controle de ponto, recibos e outros documentos de mesma natureza. Se tais documentos puderem, de alguma forma, comprovar o assédio moral, aí sim poderiam ser requisitados para comprovar o alegado. No entanto, dada a complexidade de conformação do assédio moral, outras provas mais específicas e decisivas devem ser produzidas pela pretensa vítima, para que possa embasar seu pedido de forma concreta.

As discussões que envolvem o assédio moral são personalizadas pela complexidade. O sistema jurídico pátrio, apesar das leis a respeito, em âmbito estadual e municipal (direcionadas à Administração Pública) e dos imprecisos e impróprios Projetos de Lei em tramitação, ainda não está totalmente preparado para desenvolver uma visualização perfeita em relação ao fenômeno. Apreciando as decisões sobre o tema, proferidas pelos Tribunais Regionais do Trabalho, percebemos que os magistrados confundem o assédio moral no ambiente de trabalho com ocorrências similares, mas que não se enquadrariam como tal. Exemplo típico é o reconhecimento de assédio moral nas hipóteses onde, na verdade, ocorre assédio ambiental ou institucional (políticas de gestão empresarial truculenta e afrontante à dignidade da pessoa humana, direcionadas ao grupo de trabalhadores em geral e não à determinada pessoa). Outro exemplo se refere às decisões que reconhecem o assédio moral quando na verdade ocorreu uma mera ofensa isolada. Ainda que tais comportamentos tenham o potencial de causar danos relevantes ao trabalhador, na ordem moral e material, não se constituem em assédio moral, por ser este um processo, composto por comportamentos ofensivos reiterados, direcionado à determinada pessoa ou a determinado grupo individualizável.

Neste contexto, o fenômeno do assédio moral necessita do que denominamos visibilidade social e visibilidade jurídica. Somente cumprindo esse caminho o assédio moral irá se consolidar no mundo jurídico como fenômeno definitivamente reconhecido.

Desta forma, se a pessoa que se diz vítima do processo de psicoterror laboral bate às portas do Judiciário com meras alegações, destituídas do mínimo conteúdo probatório capaz de emoldurar suas postulações, não só terá rechaçada sua pretensão, como também contribuirá para o enfraquecimento do fenômeno. A conseqüência da reiteração de tais ocorrências será o descrédito que pairará sobre a temática, estabelecendo nos julgadores justificada desconfiança em relação a outras postulações envolvendo o assédio moral, ainda que alicerçadas em provas contundentes.

Vale citar as precisas considerações de Júlio Ricardo de Paula Amaral, comentando a posição de Manuel Antônio Teixeira Filho,Limitações à aplicação do princípio da proteção no Direito do Trabalho:

“Para Manoel Antônio Teixeira Filho, não haverá incidência da regra do in dubio pro operario em matéria probatória, tendo em vista que ou a prova existe ou não se prova. A insuficiência de prova gera a improcedência do pedido e, portanto, o resultado será desfavorável àquele que detinha o ônus da prova, seja ele o empregado seja ele o empregado. Por outro lado, se ambos os litigantes produzirem as suas provas e esta ficar dividida, deverá o magistrado utilizar-se do princípio da persuasão racional, decidindo-se pela adoção da prova que melhor lhe convenceu, nunca pendendo-se pela utilização da in dubio pro operario, já que neste campo não há qualquer eficácia desta norma.”

Não se pode conceber, portanto, que o acesso à Justiça, amplamente consagrado em nossa Carta Constitucional e implementado por legislações infraconstitucionais posteriores, seja impulsionado de forma irresponsável e sem fundamentos. Aceitar a tese suicida de que primeiro se deva provocar o Judiciário para somente no curso do processo verificar se é possível ou não arrebanhar algum tipo de prova que venha estabelecer a visualização do assédio moral é revelar o oportunismo e a má fé incompatíveis com a posição da Justiça no Estado Democrático de Direito.

Preocupo-me, pois, com tais procedimentos que, muitas vezes, maculam o nome de pessoas físicas e jurídicas sem nenhum fundamento, além de enfraquecer a perfeita delineação do assédio moral enquanto instituto jurídico pendente de consolidação.

Assim, a vítima tão logo perceba o desenvolvimento de um processo de assédio moral, deverá catalogar todas as provas necessárias à demonstração futura de tal situação. Bilhetes, memorandos, anotações referentes a datas e eventos relacionados, testemunhas, gravações, laudos médicos etc.

Sempre é bom salientar que não há ilicitude algum em se gravar as ofensas, na hipótese de ser a vítima um dos elementos interlocutores. O que jamais poderá ser considerado como prova lícita, tendo inclusive o potencial para responsabilizar seus autores, é a gravação de conversa alheia, a interceptação telefônica ou o documento ou escrito conseguido de forma fraudulenta ou lesiva.

No entanto, o objetivo do presente artigo não é enumerar e desenvolver as diversas hipóteses de provas envolvendo situações de assédio moral, tema este que cuidaremos futuramente, mas alertar acerca dos fatores negativos relacionados às demandas temerárias e inconsistentes relativas ao psicoterror laboral.

Logo, de nada adiantará se levar adiante a pretensão de reconhecimento do assédio moral se não houver o mínimo de conteúdo probatório necessário a demonstrar a situação em juízo. Sabemos que muitas vezes o processo de assédio moral realmente ocorreu, mas se a vítima não possui a mínima condição de arrebanhar as provas necessárias a comprovar o alegado, uma demanda judicial somente lhe trará dissabores e desgastes, contribuindo de forma negativa para a consolidação do fenômeno no mundo jurídico.

Neste contexto, a magistral lição de Voltaire não pode ser esquecida:

“O interesse que tenho em acreditar numa coisa não é prova da existência dessa coisa.”

Desta forma é importante que discutamos as experiências das vítimas de assédio moral, até mesmo para fins de estatísticas e formatação do fenômeno. No entanto, a busca do Judiciário para reconhecimento do ressarcimento dos prejuízos suportados, na órbita moral e/ou material, só deve ser envidada quando a vítima efetivamente possui alguma substancialidade em termos de provas a demonstrar os pontos relevantes do evento lesivo. Cabe, portanto, ao advogado analisar a hipótese e bem orientar seu cliente a respeito, contribuindo desta forma para o desenvolvimento, consolidação e credibilidade do assédio moral, como processo carreador de relevante potencial lesivo, não só ao trabalhador como também em relação a toda sociedade.


raniery.monteiro@gmail.com

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Caindo na realidade


Na ensolarada Venice Beach, Califórnia, a história do rock começa a mudar para sempre quando um jovem e inexperiente fã chamado Jables (Jack Black) conhece um sujeito preguiçoso de nome KG (Kyle Gass). Os dois se tornam amigos quase instantaneamente e juntos formam a sua própria banda, o “Tenacious D.” apesar de ter apenas dois integrantes, o título de "maior banda de rock do mundo" se torna a sua maior obsessão. E para transformar o seu sonho em realidade, eles precisam obter o item supremo: uma palheta de guitarra mágica que é mantida em segurança num imponente museu do rock & roll.

Tal como os dois bobalhões, existe muita gente por aí que vive na irrealidade e fantasia de mentes obscurecidas pelo fascínio e torpor de promessas vazias. Acreditam naquilo que não é de verdade e se deixam levar por falsas aparências. Perceba que não estou falando de objetivos e sonhos reais, ainda que grandiosos, mas de pensamentos aleatórios que se deixam levar por devaneios insanos.

Você pode estar pensando que isto só ocorre nestes tipos de filmes e que por ser uma comédia não retrata a realidade do dia a dia. Muito pelo contrário, tem gente que “viaja na maionese” e torna-se presa fácil de inescrupulosos que estão por aí farejando algum delirante pra poder capturar. Aliás, tem um monte de Beelzeboss por aí acreditando que é o todo poderoso, senhor do destino e da vida das pessoas.

Curiosamente, há um tipo de gente que tem uma mórbida necessidade de se subjugar e de ser pisoteada por estas caricaturas ambulantes. Acreditam em qualquer coisa que se lhes diga e se deixam induzir até mesmo pelo mais absurdo dos “argumentos”. São manipuláveis e de fácil condução. Não possuem amor próprio e se deixam servir de capacho pra todo tipo de megalomaníaco.

Estas criaturas narcisistas, vindas não sei de onde, projetam uma imagem de superioridade com carrancas e linguagens corporais as mais estranhas achando que com isso se tornarão importantes ou imponentes. Precisam deste artifício pra esconder a verdadeira realidade: sua mediocridade e vazios existenciais.

Quem vê de fora e por alto acaba por acreditar que possuem alguma autoridade, mas não sabem que estão lá justamente porque em determinado momento se venderam ou lamberam os pés de alguém, portanto, não possuem o verdadeiro pré requisito pra exercerem aquele papel: a competência.

Vociferam, ameaçam, urram, e, pela demonstração teatral até convencem os mais desprovidos intelectualmente, mas não passa de um ritual ensaiado e por dentro estão tão inseguros que chegam a borrar as calças caso não estejam certos de que convenceram a platéia.

Por outro lado não podemos esquecer dos delirantes que acreditam que conseguiram descobrir a grande sacada que os fará ascender na vida. Apegam-se às lendas ou realizam pactos com demônios de quinta categoria que no final das contas são tão ou mais frágeis que eles. O mais interessante é vê- los desfilando como conquistadores romanos adentrando os muros da fortaleza; é hilário. Estas “crianças” acreditam mesmo em fantasias de uma ingenuidade e tolice ímpares.

Mas, o mundo da realidade não é assim. E o final deste filme, muitos de nós já vimos. Não tem como se envolver com determinadas pessoas sem ir pro buraco com elas. É da relação e está implícito. Pode até demorar e dar uma sensação de que nada ocorrerá, mas quando “a casa cai”, é uma vez só. Sem chance de se desvencilhar.

Ora, todo mundo sabe que quanto mais se cava um buraco mais fundo se enterra, mas estes espertos, não. Desafiam a lógica e o bom senso, mesmo sabendo que isso não é possível, e, pra se sentirem seguros racionalizam idéias absurdas pra explicarem seus motivos. 

Incrivelmente acreditam que são amados por quem os trata como objetos de descarte. Confiam suas vidas em víboras traiçoeiras e se espõem a todo tipo de peçonha destes. No fim, acabam num inferno astral do qual não havia a menor necessidade de se estar. 

Da mesma forma que seus proprietários, os servis, por seu fanatismo (fãs) acabam por mimetizá-los e adquirem seus trejeitos e falhas de caráter. Tornam-se pequenos mini-bobos que possuem o mesmo grau de confiança daqueles. Não à toa, são seus olhos e ouvidos por toda a parte e se sentem recompensados por poderem servir ao seu senhor fazendo seus trabalhos sujos.

Este é o mundo das fantasias delirantes de gente que tem preguiça de conquistar a coisas pelo esforço e mérito. Se esquecem que nada se conquista pelo vácuo. É preciso oferecer ao universo pelo menos uma semente pra que seja germinada e isto requer energia positiva. Pedir ajuda ao divino é importante, mas achar que este é uma espécie de gênio da lâmpada e que não terá que fazer nada é de uma idiotice significativa. Da mesma forma que acreditar que tirar algo de algum lugar sem que isto lhe seja devolvido, ou melhor, retirado é igualmente imbecil.

Mas, essa é a natureza humana que tantos nos fascina, cheia de encantos e curiosidades, afinal somos a espécie que melhor se adaptou e dominou o planeta, não é mesmo? Somos incríveis, ou não?
Raniery

quinta-feira, 24 de maio de 2012

No mundo da predação


As aranhas, ditos animais peçonhentos, são por natureza, predadores: especialistas em caça e morte. Com exceção de um, na comunidade dos insetos, ela é o terror, como seus equivalentes maiores os lobos, águias e tigres, por exemplo.

Cada espécie de aranha manifesta ou reproduz uma estratégia igualmente diferente de caça. Algumas tecem teias, outras utilizam alçapões, onde aguardam a vítima em terra, algumas colocam armadilhas enquanto esperam a presa passar e outras, ainda, se escondem dentro de flores.

Independentemente de qualquer estratégia a grande maioria das aranhas possui um padrão comportamental definido pra capturar e alimentar-se de suas presas. Sua principal ferramenta são o par de mandíbulas dos quais possuem quelíceras dentro delas. Todas as aranhas possuem veneno, que são injetados na presa pelas quelíceras, o que varia é a toxidade de cada espécie. Quando a aranha fura a vítima, espreme o veneno, injetando no animal neurotoxina suficiente pra paralisá-lo ou matá-lo. Isso faz com que seja seguro para a aranha alimentar-se de sua vítima, sem o risco de uma luta.

Da mesma forma que os aracnídeos os assediadores ou perversos narcisistas agem silenciosamente. Você já ouviu alguma vez algum som emitido pelas aranhas? Pois, é! É uma excelente estratégia caso você queira atacar alguém. Chamar a atenção pra suas intenções despertará o desconfiômetro no outro e pode atrapalhar tudo.

É a violência silenciosa, e, a vítima a sofre silenciosamente, porque se trata de uma violência velada e insidiosa, não demonstrada pelo agressor, que se estende ao longo do tempo, negada e denegada por ele, que sutilmente inverte a relação projetando no outro a culpa pela situação. Desta forma, a vítima se sente confusa, atordoada (paralisada) e acaba por sentir-se culpada, o que, por sua vez, inocenta o agressor.

As aranhas precisam suprir suas carências nutritivas, pois não as produz, daí por que caçar. Da mesma forma assediadores possuem uma inadequação interna que os impele a agredir pessoas. Ao invés de resolver seus conflitos psicológicos buscam no controle do outro sua amenização e consequente satisfação psíquica.

Sendo assim o agressor precisa desvalorizar alguém pra fortalecer-se e sentir-se melhor. A sua desestruturação interna é projetada no outro que se torna um bode expiatório que ao ser controlado ou dominado estabiliza internamente seu algoz.

O assédio moral é, portanto, um tipo de perversão na qual o uso do outro como objeto se dá pelo poder e domínio deste. O paradoxo se dá exatamente por que o agressor precisa de sua vítima pra sentir-se bem, para nutrir seu estado emocional débil, ou seja, é ela quem fornece a energia vital pra ele se sentir autoconfiante. Como este estado de tensão contínuo desencadeia uma síndrome paranóica o agressor sente-se em constante ameaça e desencadeia estes mecanismos de defesa perversos num ciclo retroalimentativo.

Preste atenção: toda a estratégia desenvolvida pelo assediador emerge a partir destes princípios de inadequação social. Muito similar a aranha, o agressor, então, passa a preparar o ambiente e o terreno pra capturar inexperientes ou desavisados.

Tal qual o artrópode, o perverso monta suas armadilhas pra capturar o primeiro que não tomar a cautela necessária; Tece sua teia de intrigas que pode contar com seus lacaios, que passam a ser os seus olhos- aliás, a aranha tem muitos também; Armam arapucas que um descuidado cai sem chance de se livrar a tempo. Se camuflam de amigos fazendo parecer que o ambiente não é hostil ou perigoso e levantam informações ou traçam o perfil de suas vítimas que serão usados contra elas; Ficam de tocaia aguardando o momento adequado pra abater aquele que não desconfia de suas más intenções e não se fazem de rogados em trair a confiança alheia; E uma vez, tudo sob controle, injeta seu veneno e suga a vítima aos poucos. Lembra? Eles acreditam que há um complô pra derrubá-los e, portanto, tudo o que fazem é válido e justificado. Racionalização, aliás, é um dos mecanismos preferidos pra adequar suas ações às explicações que devem ser dadas e que amenizem possíveis conflitos de consciência.

Mas todo predador tem um inimigo natural, à altura ou superior a ele em força ou capacidade de adaptação, é a exceção que citei no 1º parágrafo. A aranha também. Existe uma vespa da família dos Pompilídeos que é um inimigo natural das aranhas, caçam-nas e ferroam-nas, mas sem que essas morram, na verdade as deixam sedadas. São transportadas para um buraco onde a vespa deposita seu ovo e quando nasce a larva, esta se alimentará da aranha. É o predador...do predador.

Neste instante a aranha passa a, digamos, experimentar do seu próprio veneno, com perdão do trocadilho. Ora, será que um assediador também tem uma similaridade aqui? Claro que sim, é o mundo da predação!

Perceba que a vespa não possui medo algum da aranha, pois já detectou sua vulnerabilidade e ainda a utilizará para perpetuar a sua espécie, afinal, ela está muito bem nutridinha e fornecerá um farto alimento pros seus filhotes. Eu costumo dizer que o assediador desenvolve o “paradoxo do patife”. Explico: a vulnerabilidade é intrínseca dele e nele. Seu padrão comportamental pressupõe que anda na irregularidade, assim não o fosse, não precisaria utilizar-se destes artifícios, sendo assim, ele é sua própria vulnerabilidade e, sabendo-se explorá-la, cairá por suas próprias mãos.

Adotando-se medidas cautelares, conhecendo como se dá todo o processo do assédio moral, agindo de forma assertiva, isto é, equilibrando razão/ emoção e oferecendo ao agressor meios dissuasivos, ele também se inibirá ou cairá e será punido por suas ações, ou, a empresa por ser a responsável civil por ele, não importa.

A vespa aqui, por analogia, é o Direito que possui a força da Constituição e que protege e ampara as garantias individuais e fundamentais de cada pessoa. Não importa o quanto letal seja o veneno de um assediador, ele não faz frente ao poder de punir do Estado. Agora, é preciso usar a cabeça e os meios legais disponíveis pra caracterizar o problema para que a justiça cumpra o seu papel. 





Raniery
raniery.monteiro@gmail.com