quinta-feira, 3 de maio de 2012

Abaixo o monopólio do mal

Por que são assim? 

Narcisistas, paranoicos ou pessoas completamente normais. Ser cruel não é exclusividade de psicopatas. Nem toda maldade extrema é cometida por psicopatas. 

Transtornos da personalidade ocorrem numa pessoa quando ela, embora tenha a mente sã, não vive de uma forma completamente normal, e isso faz com que ela ou aqueles à sua volta sofram. O transtorno da personalidade antissocial, associado à psicopatia, é apenas um de uma lista de transtornos classificados pela Associação Americana de Psiquiatria (APA, da sigla em inglês). 

Eu sou o bom 

O narcisista se acha o mais importante do mundo - superbem-sucedido, superinteligente e superbonito, mesmo que não seja tudo isso. Ele só se compara aos famosos e acha que só presta o que for do bom e do melhor.  Como precisa da admiração alheia, rodeia-se de puxa-sacos e fica furioso se não for adulado. Para esconder suas imperfeições, procura evitar estabelecer intimidade com os outros. De tão absorto em sua própria grandiosidade, por vezes acaba não sentindo empatia com o sofrimento alheio - uma característica que compartilha com o verdadeiro psicopata.  

Um chefe narcisista, por exemplo, sobrecarrega seus subalternos de trabalho mesmo que não seja inevitável, e não se penaliza se, com isso, os coitados perdem o aniversário da filha ou o casamento do melhor amigo.  

Freio ético 

 Apesar de pontos em comum com o psicopata, como viver em torno de seus próprios interesses, há diferenças essenciais entre os dois transtornos. O psicopata não tem freio ético porque não conseguiu interiorizar a lei. "Enquanto isso, o narcisista tem esse freio, mas, por muitas vezes e em diversas situações, não consegue utilizá-lo por excesso de ‘amor-próprio’, que não é exatamente amor", diz o psiquiatra forense Elias Abdalla Filho, da Universidade de Brasília. 

"Na história recente, tivemos notícias de um político que chegou até mesmo a mandar serrar algum (ou alguns) de seus funcionários. Um narcisista não daria conta disso", diz Abdalla. Ou seja, o narcisista não tem consideração pelo outro somente até um certo ponto. "Se você colocá-lo diante de uma pessoa em aflição e se a ajuda que ele puder oferecer não afetar seu brilho, vai se sensibilizar com a dor do outro - o que não tem como acontecer com o antissocial."  

Todos contra um 

O paranoide, segundo a APA, é um cara que desconfia profundamente dos outros. Acha que pessoas o exploram, prejudicam ou enganam, mesmo que não haja nenhuma evidência disso. Se um colega fizer uma piadinha ingênua, o paranoico já acha que foi um ataque sério contra seu caráter; e elogios lhe parecem críticas veladas. Intimidades são proibidas - ele pensa que esse tipo de abertura poderá depois ser usada contra ele. Por esses motivos, parecem hostis, frios, críticos, sarcásticos, incapazes de colaborar. E, como ele guarda um enorme rancor das pessoas, qualquer deslize pode desencadear reações furiosas.  

Fora da realidade -  sem pé nem cabeça

Caracterizada por delírios, alucinações, distorções na comunicação e um comportamento desorganizado. Inspirada nele, Hollywood criou uma série de personagens macabros, como Norman Bates, de Psicose, o Leatherface, de O Massacre da Serra Elétrica, e Buffalo Bill, um cara que matava mulheres gordas para depois se vestir com suas peles em O Silêncio dos Inocentes.

Seriam os pacientes com esquizofrenia perigosos como psicopatas? Não. Segundo Abdalla, eles "não têm a condição de planejar o homicídio como um psicopata, e homicídio em série é mais difícil ainda". Por isso, quando cometem crimes, são feitos bizarros, desprovidos de sentido - como um homem que matou a mãe quebrando sua cabeça no chão para encontrar os pensamentos dela. 

A maioria dos pacientes com esquizofrenia é de pessoas passivas, apáticas, desinteressadas e, sobretudo, sem vontade, diz Helio Elkis, coordenador do Programa de Esquizofrenia do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da USP. "São os ‘sintomas negativos’, expressão de um déficit do neurotransmissor dopamina nas re giões frontais do cérebro."  No entanto, quando tem um episódio psicótico, esse nível de dopamina aumenta, e o paciente pode tornar-se violento - e o pior, com ideias persecutórias, grandiosas ou místicas. Ou seja, diferentemente da psicopatia, o perigo da esquizofrenia está mais nas drogas - ou em Hollywood - que na cabeça do paciente. 

O ambiente das grandes empresas é um cenário convidativo para o psicopata montar seu teatro - principalmente a partir dos anos 90, numa competitiva era de aquisições, fusões e falências em que, para sobreviver, organizações se tornaram menos burocráticas e controladoras e muito mais agressivas. 

Segundo Paul Babiak em seu livro Snakes in Suits ("Cobras de Terno"), a autoconfiança, a força e a frieza que caracterizam os psicopatas fez a cabeça de muitos caçadores de talentos que buscavam funcionários "proativos" e dispostos a assumir riscos. 

"Egocentrismo e insensibilidade tornaram-se repentinamente defeitos toleráveis na hora de buscar talentos necessários para sobreviver num mundo de negócios acelerado", diz Babiak.  Mas, ao procurar pessoas com senso de liderança - isto é, que assumem metas, tomam decisões sem medo e obtêm dos outros o necessário para tais metas -, tornou-se fácil confundi-las com um pacote de coerção, dominação e manipulação ocultado por uma bela embalagem. 

E como um departamento de RH bem estruturado deixa passar um psicopata após tantas análises de currículos, entrevistas e dinâmicas? Simples: o psicopata tem um talento enorme para enganar. Se ele colocar na cabeça que quer ser piloto de uma companhia aérea, vai dar um jeito de forjar um comprovante da Nasa dizendo que já foi até astronauta. Vai mentir no currículo, vai mentir nas entrevistas e vai fazer tudo isso com o sangue frio e o charme. Psicopatas são convincentes, encantadores e conseguem transformar um punhado de conhecimentos superficiais numa tese de doutorado.  

E o que pode resultar da contratação de um psicopata? Dificilmente algo que preste. Para começo de conversa, ele não tem espírito de equipe. Muito pelo contrário: se for preciso puxar o tapete de um colega para promover-se, não vai pensar duas vezes. Outro lado da questão é que o psicopata não tem o menor interesse no futuro da empresa. Para ele importa o aqui-e-agora, a satisfação rápida e intransferível.  Além disso, psicopata não compartilha dos mesmos valores da companhia e de seus colegas. 

A diretoria quer gente que dê duro, todo dia, das 8 às 18 horas, e que vista a camisa da empresa? Pode esquecer. Ele até consegue encarar essa rotina por um certo tempo, sempre com a intenção de passar uma imagem falsa. Mas os únicos valores que lhe dizem respeito são só os que estão na própria cabeça.  Como regras sociais não lhe dizem nada, ele frequentemente comete atos ilegais, o que joga a reputação da empresa no buraco. Desvio de grana, assédio moral e sexual são corriqueiros. Por isso, não dura muito na empresa.

No entanto, sua passagem é um vendaval. Se a trajetória do psicopata não prejudicar a empresa como um todo, no mínimo alguém vai sofrer com seu convívio. Nas mãos de um mestre da mentira e da manipulação, seu colega precisa passar o expediente todo com os olhos nas costas - caso contrário, vai acabar fazendo o trabalho que o psicopata deixa de lado (sem levar os créditos por isso), além de ser envolvido numa teia de intrigas. 

Esse é o seu caso? Então fique contente por ele não ser seu chefe. Em algum momento você já disse que seu chefe é um carrasco. Pode ser verdade, mas daí para ele ser um psicopata são outros quinhentos.  Ele vai sentir prazer físico em humilhá-lo na frente de colegas e de outros chefes; vai culpá-lo por qualquer porcaria que ele mesmo fez, e vai assumir o crédito por qualquer trabalho bacana que você produzir.  Sim, abusos de autoridade e falta de ética não são exclusividades de chefes psicopatas. A diferença é que, para o psicopata, esse é o padrão.


raniery.monteiro@gmail.com