quarta-feira, 19 de abril de 2017

Ninguém deveria viver pelo medo!

O medo é uma forma de energia poderosa. Faz parte do conjunto de regulações de nosso sistema de mecanismos de defesa/ sobrevivência. Emoções são dispositivos evolucionários que permitiram que fossemos uma espécie bem-sucedida na Terra.

Pense: diante de você se encontra um enorme felino com presas gigantescas para fora franzindo o rosto e ao olhar ao redor você está no fundo da caverna. Seu coração parece que vai sair pela boca, seus braços estão molhados de suor e você está mais quente que picanha em churrasco. De repente, você olha para o chão e vê a sua lança...agora, é matar ou morrer.

Comida de Dente de Sabres você já tem, mas com 0,001% de chance de sobreviver num salto você parte para cima do gatêêênho que desacreditando parte em retirada em desabalada carreira. Quem imaginaria! Se você soubesse disso antes...evitaria estar com as calças borradas, é ou, não é?

Pois é, a adrenalina disponibilizada transformou um covardão em um monstro capaz de enfrentar um poderoso mamífero gigante pronto a predá-lo. Mas, e o medo? Para onde foi? Medo é energia, lembra? Não está lá para garantir a sobrevivência? Então, tanto faz se está em forma de choro, ou de raiva...pois, tudo é energia.

Tecnicamente, medo é um comportamento baseado em emoções sedimentadas em nossos mecanismos de defesa e sobrevivência que desencadeia processos fisiológicos, neurobiológicos e psicológicos. Um comportamento emocional constitui-se de um conjunto de reações frente a uma sensação advinda do meio e processada por nossos canais de percepção.

Ora, somos seres sociais e desenvolvemos nossos processos de vivência em grupo que se torna um novo ente, um sistema unificado como se fosse um único e novo super indivíduo. A função do grupo é condicionar o indivíduo. Levá-lo a adaptar-se às suas regras. E se isso não ocorrer...

Nas organizações, sobretudo, as mecanicistas o sistema burocrático/ hierárquico torna o processo de controle comportamental um fim em si mesmo. O poder de coação do superior ao subalterno torna-se mais relevante que o sentido disso. Daí,a implementação de um programa de punições, na verdade, uma cultura de punições para que o superior não sofra a mínima resistência.

Pavlov, Skinner e Matson estudaram os processos de condicionamento comportamental e propuseram suas famosas hipóteses de condicionamento. A conclusão é a de que o comportamento é um fenômeno que pode ser aprendido.

Não importará a verdade, o real, para o grupo o que importa é que seus indivíduos sejam cooptados. É uma relação imediata, portanto não aceita a análise da semântica por trás das conveniências que se perseguem.

Nesse sentido, alguém que ocupa um cargo de autoridade passará a demandar a mente daquele que estiver sob as suas ordens. Não será, outrossim, admitida a desobediência, por mais absurda que seja a ordem. E o medo será o canal manipulado pelo, agora, senhor do subordinado. Não nos esqueçamos que em economias capitalistas o empregador compra a força de trabalho e ganha legitimidade para demanda-la já que o risco do negócio lhe pertence –  essa é a regra do jogo.

Mas, algumas “viagens” acontecem pelo simples fato de que humanos não são seres racionais ou burocráticos. Tanto o chefe abusará, tanto quanto o empregado se insurgirá. Entretanto, o último está em desvantagem frente ao primeiro que determina a dependência dele pelo pagamento do salário, pelo excedente de mão de obra e pelo poder econômico.

Nessa relação, o medo torna-se moeda de troca. Há uma linha limítrofe finíssima entre o poder diretivo do empregador e o abuso ou assédio moral. Diante de um período de instabilidade econômica isso é recrudescido e a parte mais frágil torna-se refém das anomalias dissociais de gestores tiranos.

É o que vem ocorrendo em conhecida empresa de sociedade de economia mista aqui em Santos onde um gestorzinho de quinta categoria, envolvido com uma quadrilha de bandidos passou a deflagrar uma onda de terror e arbitrariedades. Para se ter uma ideia um de seus assessores fora flagrado em um vídeo onde bravateia um sistema de corrupção com desvio de quase R$ 370.000.000,00.

Acontece que o gestorzão que se auto admira e se diz adepto de Sun Tzu decidiu que iria reestruturar tal empresa e moraliza-la. Isso seria como fazer faxina numa casa com água de bosta. Quando se levanta as associações e relações do moralizador percebe-se o quanto a lama é o limite. Portanto, quando alguém tão sujo assim assume um cargo em empresa ou órgão público, imediatamente ele passará a demanda-lo pelo medo, porquanto, é necessário dissuadir qualquer um que for potencialmente capaz de “estragar” os seus esquemas.

Nesse lugar, os esquemas são sujos e atingem a todos os setores, onde, de cima pra baixo, se praticam atos de imoralidade pública. Isso, mesmo: com o dinheiro do contribuinte brasileiro o mal servidor pratica conluios para obter vantagens pessoais. São cargos comissionados, são assessores indicados, são os filhos ou as mulheres dos chefes beneficiados; e o cordão dos puxa sacos? Cada vez aumenta mais...

Ora, se no grupo alguém se insurgir, imediatamente, essa rede espúria funcionará para fagocitá-lo. Surgirão processos administrativos viciados, demissões arbitrárias, perseguições e muito, mas muito assédio moral. É um sistema eficaz de disseminação do terror e do medo.

Mas, e, se e tão somente se, o número de funcionários - que é desproporcionalmente maior que o número de salafrários - descobrir (perceber) que numericamente é mais forte que toda a organização deles? Ora, o medo trocará de lado e passará para o lado da bandidagem.

Eles podem sufocar um ou dois empregados? Sim, podem! Demitem alguns e dizem que foi por isso ou por aquilo, que são vagabundos, que dão prejuízo para a empresa e enganam a todos. Mas, como fariam isso com todos? Como explicariam o fato de todos serem demitidos? Qual é a chance disso acontecer?

Veja que o medo também possui uma característica psicológica, isto é, tem origem na mente, na interpretação que se faz do meio, do perigo, do risco e tal qual o homem das cavernas que olhou para a lança e se projetou para cima do Dente de Sabre, o assediador não fará diferente, e, fugirá amedrontado, pois cometeu o erro de subestimar os mecanismos de sobrevivência do grupo que atacou.

Reproduzir o discurso do demissor não desenvolverá nele alguma espécie de empatia, pelo contrário o adulador será seu brinquedinho sádico tal qual o gato que brinca com o alimento antes de devorá-lo.

São escórias humanas que vêm lá, não sei de onde e depois de devastar o lugar por onde passam, vão embora. Como uma nuvem de gafanhotos exaurem o lugar por onde passam e se vão sem olhar para trás. Ninguém deveria ceder às chantagens de corruptos! Se insurgir contra o mal que devorará o emprego do trabalhador é o caminho a ser tomado, pois a inércia somente os favorecerá.

Se for um servidor público a coisa então deve ser vista com outra dimensão, já que para ser admitido preparou-se, passou em todas as etapas exigidas, e não caiu de paraquedas indicado por algum malfeitor qualquer.

Cair na conversa manipuladora de gente envolvida com quadrilha é cometer o maior erro que Sun Tzu diz que não se pode:  "A arte da guerra é de importância vital para o estado, é uma questão de vida ou morte, um caminho tanto para a segurança como para a ruína. Assim nenhuma circunstância deve ser negligenciada".

Portanto, ninguém deveria viver refém do medo!
Raniery