sábado, 31 de julho de 2010

Controlando as pessoas pelo medo


O medo é um sentimento atávico, isto é, contagiante. Como o rato da “Pequena Fábula” de Kafka nos impede de tomarmos as decisões mais acertadas porque nos leva à precipitação. 

Ao invés de mudarmos de direção nos induz em direção ao que mais tememos. Esse medo que paralisa definitivamente não é a melhor atitude a ser tomada.

Não que temer seja necessariamente algo ruim, ainda que soe contraditório, aliás, a cautela seria o medo controlado com revestimento de coragem. Como dizia Montaigne, só há coragem onde existe medo. 

Aquele que não sente medo, não pode ser corajoso e será dito temerário, um louco rumo ao precipício. O medo que aqui se trata é aquele que nos controla, ou, pior: que permite que nos controlem. 

Todos temem, seja o medo da morte, do desconhecido, da incerteza, da felicidade...sim, até mesmo a felicidade é temida. Talvez tenhamos medo dela porque tememos perdê-la, receamos experimentá-la e, depois, não suportar mais viver na sua ausência.

Veja, por exemplo, a alegria de ser pai/ mãe que simultaneamente traz consigo uma série de preocupações e ansiedades. A violência das ruas concomitantemente a uma justiça duvidosa faz do medo praticamente uma regra do cotidiano.

O medo é a mais antiga forma de manipulação. George W. Bush usou-o para justificar sua política belicista contra o terror. Pelo discurso do medo, seu governo restringiu liberdades no território norte-americano, invadiu o Iraque e praticou torturas em Guantánamo.

Graças ao medo do comunismo, difundido entre a classe média brasileira, nossos militares, apoiados pelos privilegiados de sempre, impuseram a ditadura por mais de duas décadas, pelo advento do golpe de 64. O mesmo discurso ajudou na eleição de Collor de Melo à presidência, induzido pelos grupos midiáticos. É, pois, em razão do medo que paralisa a capacidade reflexiva, que discursos como estes frutificam.

Atualmente, estamos presenciando a dilapidação de nossa frágil democracia pelos mesmos grupos elitistas e usurpadores do poder que desta feita inovaram em tomá-lo, não mais pelo sufrágio universal, mas pela mentira e manipulação da massa ignorante sob o pretexto de combate à corrupção numa engenhosa composição de elementos dos três poderes defecando assim, em nossa Constituição.

Manipulando os destituídos de capacidade crítica os leva ao ridículo estimulando-os a se manifestarem a favor de bandidos de colarinho branco, personalidades neuróticas e bizarras, jurisconsultos que no passado aderiram a pensamentos nazistas, radicais de extrema direita, entre outros.

Num processo de lavagem cerebral midiática as pessoas disseminam uma série de opiniões destituídas de qualquer embasamento técnico/ científico, julgam como se fossem magistrados, fazem afirmações baseadas em sentimentos medíocres, ou seja, encorajam toda sorte de idiota virtual que ganha voz e status de autoridade, como se fossem abertas as portas de manicômios judiciários.

Nas empresas e organizações não acontece nada de diferente, pois a manipulação do dono do capital é algo que já nasceu assim, sobretudo, quando se imagina a apropriação da mão de obra. Curiosamente, este trabalhador adestrado e já alienado durante centenas de anos comporta-se como um PET ou animal de abate sendo capaz de amar e brigar pelo carrasco que o levará ao abatedouro.

Isso tudo comprova que o medo é um elemento de construção e apropriação do poder e que a manipulação é o seu capataz mais leal. O Estado e as Organizações sabem muito bem disso e o usa em seu próprio benefício contra uma massa de manobra que se acha recompensada em lhe agradar.

Paradoxalmente entre os mais empolgados adestrados se encontra aqueles fanfarrões de redes sociais que se autoproclamam os sabichões da sociedade.


Então, concluímos que o medo não só paralisa como deturpa os canais de percepção de nossa visão de mundo e que a melhor forma de proteção é o conhecimento que liberta.




Raniery
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