sábado, 16 de maio de 2015

Help Me Dr!

Viver é um processo de interação contínua e de exploração da realidade que está diante de nós. Sendo assim, aquilo que se apresenta e aparece diante de nossos olhos como real, nem sempre é de óbvia interpretação, encobrindo contextos mais complexos do que imaginaríamos, principalmente sob a superfície. Tampouco, significa isso dizer que não possamos identificar os elementos subjacentes de tal fenômeno.

Que o assédio moral é um tipo de abuso tão antigo quanto o homem, não se discute, no entanto, nem sempre sua identificação (em termos de fatores) é tão simples, daí porque se dizer que é subjetivo. Inúmeras teorias dos especialistas emergem a cada momento e me permito levantar as minhas hipóteses, muito menos pra estabelecer um grau de informação científica, muito mais para suscitar em você a discussão sobre o tema.

Pra fazer isso gostaria de utilizar os recursos da ficção científica para criarmos um contexto que nos possibilite explorar as inúmeras possibilidades que o fenômeno assédio moral pode assumir.

Dessarte, façamos uma viagem no tempo e para isso utilizaremos uma nave que tomarei emprestado do Doctor Who- a TARDIS; A programarei para que nos leve alguns anos antes da década de 70, precisamente em 1964, quando se instalou o golpe militar que destruiu a democracia da época e que tecnicamente se denomina “revolução”; tratando-se, por conseguinte, de uma ruptura contra uma estrutura político/ jurídica e o surgimento de uma nova realidade Estatal pelo grupo dominante- os militares apoiados pela elite econômica, mega-organizações estrangeiras e a participação decisiva do Governo norte americano, à época.

Pois bem, segure-se porque acabamos de entrar em um buraco de minhoca que romperá o tecido do tempo/ espaço e, em instantes, aterrizaremos na Santos daquela época (importante e estratégica por conter o maior porto sul-americano do país).

Pronto, chegamos! Logo que abrimos a porta da Tardis, surgiu diante de nós uma escola infantil chamada Passos Sobrinho, sendo que a primeira imagem que vimos foi a de dezenas de crianças, perfiladas, cantando o hino nacional brasileiro, diante da Bandeira hasteada como se fossem pequenos soldadinhos.

Para os militares, uma parte importante do processo de tomada do poder era condicionar a grande massa para que agissem de forma servil às suas intenções, portanto, reformaram todo o sistema educacional que, entre outras coisas, abolira os conteúdos de cunho sociológico e filosófico do plano de ensino, ao passo que criaram disciplinas doutrinadoras de sua “ideologia”. Pois assim conseguiram formar verdadeiros rebanhos que hipnotizados pelos veículos de mídia comprometidos com o regime eram induzidos à alienação da verdadeira realidade que se impunha.

Aqueles que não aderiam à manipulação da propaganda militar ganhavam rótulos de subversivos e sofriam com torturas, abusos e homicídios. Então, de um lado, o cidadão comum tinha o medo e, do outro, o controle mental. É nesse caldo caótico que aparece um dos personagens que integram o universo do assédio moral: o “capanga”- como os denomino. O termo é antigo, mas é o que me veio à mente para tentar descrever um perfil chulo.

Não é preciso muita massa encefálica pra deduzir que tipo de gente demonstrava sua verdadeira natureza num ambiente desses, pois a história grassa em apresentá-los em todos os tempos. E, meu amigo (a), eles brotavam da terra. É o bom e velho adulador, um verdadeiro senhor do tempo, pois onde tenha existido um agrupamento, lá estava ele afagando algum tiraninho.

Para entendermos mais o que acontece na mente quando submetida a estímulos, como os da ideologia ditatorial, precisamos recorrer a forma como o cérebro constrói sua própria arquitetura. 

Segundo Piaget, uma criança em processo de desenvolvimento e aprendizagem forma estruturas neurais que vão se sofisticando à medida que cresce e se desenvolve. Todavia, ela não possui as referências que os adultos possuem, logo, sua lógica difere da deles. 

Daí, o que ela faz é acomodar a nova informação adaptando-a as suas referências e, a partir daí, vai criando toda uma acomodação do significado da realidade que lhe permitirá interagir com o meio. Ou seja, estabelece-se um ciclo de estímulo-resposta-reação e, consequentemente, estruturação neural- daí o termo “Construtivista” relacionado ao Biólogo/ psicólogo suíço.

Mas, por que a Tardis nos levou até aquele momento? Ao que parece ela fez uma conexão com o processo de “condicionamento orientado” que os militares impunham à população, cujo conhecimento derivava da formação que recebiam da Escola das Américas idealizada e implementada pelo Governo dos EUA (através da CIA) em programas específicos para a América do sul, daquele período, como a Operação Condor, por exemplo, incluindo o investimento numa Rede de TV brasileira por meio de outro grupo de comunicações, uma prática antiga da Agência Central de Inteligência; Esta TV posteriormente viria a se tornar um Poder à parte no país- criada exatamente para estabelecer uma catarse coletiva.

Bem, depois de tudo isso, entremos na Tardis e voltemos para a atualidade, longe de toda aquela turbulência, das botinas e carabinas dos policiais militares, das prisões e mortes arbitrárias dos porões da ditadura e de toda censura que cerceava nosso direito à informação. Desta vez pararemos próximos da escolinha infantil, mas não em frente a ela. Não se esqueça de se segurar porque atravessar a relatividade espaço-temporal será uma jornada turbulenta.

Pronto, chegamos! Ufa! Agora o que temos diante de nós é a imagem de uma empresa onde pessoas entram e saem, não obstante, algo não se encaixa bem nela. Ao andar por seus setores vemos móveis antigos, do passado do qual voltamos, dando a sensação de que não chegamos ainda ao presente. 

Ali, funcionários repetem tarefas sem sentido como se estivessem nos anos 70 do século passado. De repente, aliviados, vemos terminais de computadores que parecem não se acomodar muito bem àquele ambiente.

Mas, a relatividade quântica deste universo paralelo nos deixa aterrorizados, pois ao chegar perto das pessoas elas têm uma aparência bizarra, lembrando, pra falar a verdade, um dos personagens do filme Piratas do Caribe, pai do personagem Will Turner, isso mesmo, o Sr Bill Turner, que para pagar uma dívida com o pirata do outro mundo tornou-se escravo no navio fantasma e...criou incrustações por todo o corpo.

Como criaturas sem vida, mas vagando em um limbo, tais pessoas repetem irracionalmente tarefas que não contêm a menor racionalidade, isto é, sem a menor eficiência, desconexas a qualquer forma de fim útil, simplesmente fazendo por fazer, burocraticamente, como se fossem obrigados a isso pelo poder que os amaldiçoara pela eternidade naquela dimensão fantasma.

Suas expressões são características denotando frustração, enfado, fracasso, pesar, ódio, medo, rancor, ressentimento e, se, por algum motivo, se sentirem confrontados iniciam uma guerra pessoal contra aquele que passará a ser o seu inimigo. É que assombrações não aceitam o questionamento daquelas de suas ações, ainda que inúteis. Agem e reagem desproporcionalmente, senão não seriam o que se tornaram.

Tais pessoas condicionadas estão acorrentadas em um comportamento que não lhes permite recorrer às suas consciências e à sua razão visto que foram programadas, lá atrás, a serem estéreis e não podem desta forma utilizar seu livre arbítrio para agir coerentemente. Você se lembra delas: estavam de cara emburrada cantando o hino do Brasil em fila indiana na escolinha infantil. Pense: a escola lhes impunha aquilo que chamavam de “valores”.

De fato, é até possível constatar que são pessoas de “bem”, seja lá o que isso quer dizer, mas incapazes de, por exemplo, dizer um “não” a ordens absurdas ou baseadas no arbítrio/ capricho do gestor assediador.  

Perceba que suas mentes cauterizadas se petrificaram pelo tempo em que foram expostas ao arbítrio daqueles que rejeitam as liberdades democráticas e a nova ordem que surgiu desde 1988 com o advento na nova Constituição brasileira. De fato, eles se incrustaram ao passado e não aceitam os ventos das mudanças, que, aliás, começaram a quase trinta anos. Eles são avessos a princípios como o da legalidade, Isonomia, Devido Processo Legal, Dignidade da Pessoa Humana, embora em seus discursos vazios afirmem serem escravos da lei. O que, se pensarmos bem é uma contradição já que a lei estabelece o limite (Direitos e Garantias) do poder e não a sua extensão, logo, não faz sentido ser um escravo dela.

Em lugares assim, ainda prevalece a ideia de coronelismo, onde alguém que é indicado politicamente para assumir um cargo, vislumbra oportunidades de enriquecimento ilícito e passa a lotear aquilo que é de interesse público o que, consequentemente, viola os interesses da Nação. Acontece que nenhum ditadorzinho que se preze trabalha sozinho e precisa do seu capataz de plantão pra sujar as mãos por ele. Ora, quem mais seria perfeito que o nosso burocratazinho!

O que a Tardis quis demonstrar com toda aquela viagem pelo tempo foi que tudo tem uma conexão, uma relação e, nada, na verdade, ocorre ao acaso. O subjetivismo, na verdade, é o acobertamento, a dissimulação, o engodo que se pratica em nome da calhordisse.  A máquina do tempo nos mostrou que o que fazem estes alienígenas, é reproduzir os mesmos atos pelos quais foram condicionados por seus senhores.

O que temos que imaginar é que sob a superfície dos atos se encobre as intenções de grupos que pretendem subjugar outros pra que lhes sirvam. E, ainda que nos afeiçoemos a eles a recíproca não será verdadeira, pela simples razão de que não estão dispostos a uma partilha, mas como parasitas infectos querem devorar sozinhos tudo o que conseguirem e, com isso, não aceitarão os que atravessam o seu caminho...onde surge uma das muitas entre tantas faces do assédio moral.


Ora, se para entendermos a realidade que nos cerca precisássemos toda vez entrar em um dispositivo que fizesse a conexão com os fatos e nos levasse de volta às origens de tudo perderíamos o contato com a realidade que se nos apresenta no presente.

Entretanto, temos a melhor máquina de todas para entender o que ocorre, bastando pra isso que a consultemos: nosso cérebro- e a energia que alimenta esta máquina de percepções? Nossa devida atenção! Dado que somente desta forma poderemos decodificar o que acontece diante de nós, sobretudo, 
nas entrelinhas, incluindo aí, o assédio moral.
Raniery