quarta-feira, 13 de julho de 2011

Gato de rua: estratégias de sobrevivência




Vira lata (Brasil) ou rafeiro (Portugal) é a denominação dada aos cães ou gatos sem raça definida.

O termo vira-lata deriva do comportamento desses animais que, quando abandonados, são comumente vistos andando famintos pelas ruas revirando latas de lixo a procura de restos de comida.

Um dos aspectos mais interessantes do vira-lata é a sua variedade e versatilidade. Encontram-se SRDs de todas as cores, tipos, e temperamentos. Destaca- se ainda o fato de serem habitualmente muito inteligentes e afetuosos, variando de acordo com as características herdadas.

Que eu gosto da natureza e de animais não é novidade pra ninguém. Outra coisa que fica claro, é que tiro disso muitas lições pra nortear minha própria vida, mas isso também não é novidade alguma e nem original de minha parte já que é algo praticado desde os tempos mais remotos por inúmeras civilizações, o que não anula sua importância, já que somos seres culturais e aprendemos muita coisa por imitação, inclusive o que é ruim.

Outro dia, chamou- me a atenção o comportamento de um gato urbano perambulando na madrugada fria de inverno pelo cais santista. Com seu andar lento e ritmado, o felino, apesar de tranqüilo, era a cautela em pessoa e colocava todo o seu instinto animal em seu impressionante sistema sensorial.

Nada passava despercebido pelo bichano. Suas orelhas pareciam dois radares que se movimentavam independentemente captando todos os sons do ambiente ao redor: um observador profissional, eu diria.

Também despertou minha curiosidade sua aparência que apontava para um animal territorial e competitivo já que era cheio de cicatrizes por todo lado evidenciando inúmeras brigas com outros gatos e até cães, talvez.

Imediatamente me veio à mente a imagem dos cartoons (outra coisa que gosto muito) que exploram muito bem estes estereótipos.
Muitos dos comportamentos dos gatos, bem como a verdadeira natureza felina, só são realmente compreendidos quando conhecemos e estudamos a estratégia de sobrevivência de seus parentes selvagens.

As fêmeas acasalam- se com machos vindos de outros territórios. A explicação dos cientistas foi que elas, intuitivamente, procuram aumentar a diversidade genética com machos de outro grupo, além de procurar parceiros mais ousados em condições de brigar por território.

Outra estratégia dos gatos em sua sobrevivência é associarem- se ao homem e disso obter vantagens.

Não se sabe ao certo como eles conseguiram essa aproximação sem virar comida, quando do início de sua domesticação, há cerca de 12 000 anos. Como esta coincide com o início da agricultura, provavelmente o homem tenha descoberto nos felinos ótimos guardiões, contra os roedores, dos cereais armazenados. De qualquer forma, deu certo.

Foi esta habilidade como caçador que permitiu sua domesticação, sendo o gato um dos mais independentes animais que convivem com o homem, conservando até hoje características de seus ancestrais selvagens.

Ele já foi para o homem um animal sagrado, quase um deus, mas também foi perseguido por supostas ligações com bruxas e demônios.

Convivendo conosco há milhares de anos e extremamente adaptados a nós, logo passamos a admirar suas habilidades e comportamentos.

No Egito, há 5 000 anos, tais habilidades elevaram o conceito dos gatos entre o povo, a ponto de serem adorados como deuses. Havia até mesmo uma deusa representada como uma mulher alta com cabeça de gato. A deusa Bastet aglutinava as características das melhores habilidades felinas sendo invocada em rituais de proteção, e quando manifestava seu lado guerreiro tornava- se a leoa deusa da guerra o que demonstra implicitamente que nessa civilização o feminino não era depreciado, ao contrário demonstrava a força que a mulher tem.

No dia-a-dia, os gatos protegiam as casas contra ratos e cobras venenosas, assim como participavam de jogos de caça e compartilhavam as horas de lazer familiares. A gradual extinção dos deuses pagãos e o crescimento do cristianismo produziram uma dramática mudança de atitudes em relação aos bichanos na Europa, da idade média, principalmente a partir do século XIII. De um ser essencialmente símbolo da feminilidade e maternidade, ele virou agente do demônio, símbolo do diabo, companheiro de bruxas e feiticeiros. Acreditava-se que as bruxas se transformavam em formas felinas. O mesmo faria os demônios. Por isso, os gatos começaram a ser perseguidos, torturados, lançados na fogueira, jogados dentro de caldeirões de água fervente, lançados vivos do alto de edifícios, tudo numa atmosfera de extremo frenesi.

O impulso de uma fera forte e inteligente ainda está vivo debaixo de sua pele. Ele é mais sensível ao perigo e aos movimentos bruscos; quando sai à rua, por exemplo, raramente é atropelado. Misterioso e surpreendente é capaz de sair do seu andar calmo, num aparente ar de majestade, para um súbito e fulminante salto de certeiro caçador.

Estudos sobre a genealogia do gato doméstico apontam como seus antepassados os mais espertos, sutis, perigosos e valentes mamíferos do planeta. Sob a pele de um gato dorminhoco repousa, com elegância, o ocelote; no olhar de uma gata rajada, com os olhos fixos no pássaro do jardim, pode-se notar os olhos do tigre. Entre as muitas qualidades herdadas dos felinos selvagens e predadores estão os afiados dentes, as unhas, a força física, a agilidade e a rapidez ao atacar a presa. Por mais que pareça estranho, o gato pode ter tido os mesmos ancestrais do cachorro.

Entre seus parentes que se extinguiram estavam várias feras terríveis, como o grande leão das cavernas da Europa e um tigre gigante do norte da Ásia. Entre eles também estavam os tigres dentes-de-sabre, com dentes caninos que se assemelhavam a punhais.
 
Os gatos podem formar pequenas comunidades organizadas hierarquicamente em rituais e regras bem estabelecidas. Os grupos giram em torno de um chefe mais velho. A vida social de que goza a maioria deles está apoiada e reforçada pela capacidade de se comunicarem por meio da linguagem do corpo, da vocalização e do olfato. Se dois gatos são amigos, eles se esfregam para futuras identificações. Sua socialização, portanto, se dá de forma extremamente seletiva.

Caçar é tão natural num gato quanto miar. As técnicas predatórias vêm do berço, aprendidas com a mãe: em condições naturais, não domesticadas, uma mãe leva ao filhote pedaços da presa, ou a própria, inteira para que os gatinhos aprendam. Para localizá- la, os gatos dedicam muito tempo e energia. Exploram calmamente o local em busca das mais adequadas. Planejamento, observação cuidadosa e a surpresa são os elementos-chave de um ataque perfeito sobre os ratos ou outros pequenos animais. Caçadores pacientes ficam imóveis por longo tempo até que possam saltar sobre sua refeição.

Se o seu gato corre em disparada no meio da madrugada perseguindo um feixe de luz, atacando sombras ou persegue o próprio rabo, fique tranqüilo. Ele não está ficando doido e existe uma explicação para essas atitudes. Toda vez que ele fizer algo estranho saiba que deve estar reagindo a estímulos que nós humanos não percebemos e tão pouco escutamos. Os sentidos aguçados, a percepção afinada, sua visão minimalista permitem acesso a um universo que nós jamais entraremos.


Mas, voltando a nossa figura fascinante que patrulhava ao armazém empoeirado do cais, percebi que seu poder de adaptação esplêndida somados às suas habilidades e sua extraordinária estrutura atlética o capacita a superar os desafios da rua. É um especialista em sobrevivência que pode nos ensinar a superar nossas próprias adversidades e, assim como essa figura urbana, podemos enfrentar cada desafio e nos tornarmos especialistas em nossa área de atuação ou ambiente.

Como nas culturas xamânicas, invoquemos os poderes desse animal fantástico e partamos pra conquistar nosso território que são nossos sonhos e objetivos, e, da mesma forma que ele, não permitamos que outro os invada e nos tome o que nos é mais
importante e valoroso.




Raniery
raniery.monteiro@gmail.com