sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Quando Tudo Se Revela

Há  Movimento Ou Ilusão?
A realidade é subjetiva. Cada pessoa constrói a sua. Um mesmo fato pode ser contado e/ou interpretado de inúmeras maneiras. Filtros mentais interferem nessa relação.

Interpretamos o mundo através de nossos sentidos, que por sua vez são processados em nosso cérebro, e, isso, nem sempre é sinal de exatidão. Basta saber que captamos uma miríades de informação de forma simultânea, mas o cérebro precisa priorizar o que é mais importante e relegar o resto a um segundo plano.

Tendemos a categorizar o mundo segundo nossos filtros mentais, o que pode gerar falsos raciocínios e nos iludir. Realidade sócio-econômica, cultura local, traumas, educação, religião, genética, tudo isso, concorrerá para que formemos um conceito próprio da realidade.

Mas, a sociedade se organiza elementarmente para que possa extrair o máximo benefício desta relação em grupo. Tais códigos pretendem atuar sobre nossos comportamentos para que não excedamos no exercício de nossos direitos. Perceba, então, que há uma deliberada interferência sobre nossa liberdade, de ser e agir, em prol de um valor maior- o grupo.

É evidente que seres egoístas que somos, não aceitamos que se nos imponha o que nossa vontade decide que façamos. É neste instante que se concebe o conflito. E o conflito não é necessariamente algo mal como costumamos enxergar, pelo menos, na sua essência, evidentemente. É dele que surge as mudanças sociais e os grandes questionamentos da dinâmica humana e suas civilizações.

Viver é conviver com as mudanças. É da nossa natureza mudar o mundo. Desde que atingimos uma consciência de nós mesmos que o mundo nunca mais foi igual. E isso, em termos positivos e negativos. Ao mesmo tempo, nos apegamos a tradições, conceitos, paradigmas, o que nos traz uma falsa sensação de segurança, ou, de uma falsa realidade.

Veja os valores, por exemplo. Eles são elencados como mecanismos de estabilidade e harmonia social, mas estão em constante mutação. Como isso se dá de forma imperceptível, em determinado momento, acabamos achando que houve uma violação dos mesmos. Vemos isso no conflito de gerações.

Pegue o conceito de respeito (um valor) e o situe em vários tempos históricos e verá que o que era considerado como desrespeitoso em um intervalo de tempo, por uma dada sociedade, não terá a menor relevância em um outro momento e grupamento social.

O valor respeito é uma convenção que tem sua forma de atuação conectada diretamente com a interpretação social que a utiliza, em função do benefício que se oferece. Pergunte-se porque você quer o respeito de alguém e a resposta é o valor mensurável que a atitude tende a produzir. Sendo assim, a tempos atrás, beijar alguém em público feria a moral social e causava escândalo, mas hoje é coisa corriqueira que, de certo modo, nem chama a atenção.

Nesses dias eu tenho estado incomodado com a atitude de uma escola infantil aqui de Santos-SP, onde meu filho foi agredido a unhas por "alguém" que, convenientemente, a escola achou por bem, manter anônimo entre a negligência das professoras que ali trabalham.

Intimidado, ele se recusa a apontar o agressor, mas a diretora está mais preocupada com a reputação da escola, dado a gravidade do caso, que com a integridade física e moral dele. Com o discurso de quarenta anos de educadora tentou me convencer que o fato é coisa que acontece, e que não há culpados. 

A dor física e, pior, psicológica que uma criança de 4 anos está sentindo é irrelevante para essa senhora, que orientada por seu advogado, tentou jogar para fora de seus muros o incidente induzindo que poderia ter ocorrido no transporte escolar que atende exclusivamente sua escola.

Citei, então, dois outros episódios que envolviam de forma similar uma mesma funcionária, mas tudo foi minimizado e descaracterizado pela coordenação e houve a inversão de culpa, ou seja, as duas crianças é que teriam, segundo elas, estimulado a auxiliar a machucá-los. Quando alguém age assim eu costumo dizer que está tentando me convencer de que " é o rabo que balança o cachorro".

No primeiro momento, eu e minha esposa, ficamos confusos e pensamos se tratar de algum caso de Bullyng, mas a filha da diretora que é uma das coordenadoras disse-nos que crianças nessa fase de desenvolvimento não seriam capazes de um complexo comportamento, como o de intimidar. Então, eu lhe disse: " se não foi criança, foi um adulto..."; ela parou por um instante, e disse que não; nesse momento eu pedi uma explicação simples: diante do fato de uma lesão no corpo do meu filho, e a notória mudança de comportamento que o faz se sentir intimidado, quem foi, então, o agressor? 

Até o presente momento, estou sem resposta, mas a escola vem fazendo um atento trabalho de maquiagem dos fatos, inclusive orientando a psicóloga a escrever na agenda da criança que ela tem dito que não fora nenhum profissional dali o culpado, mas uma outra criança que ninguém por lá sabe quem é.

O curioso desta triste história é que a auxiliar é a única que identificou o machucado, mas decidiu não relatar pra ninguém o acontecido, pois não achou nada demais aquilo. A outra professora diz que só foi vê-lo na hora de trocá-lo para a aula de capoeira, mas que relatou tudo a coordenação, que por sua vez disse que se esqueceu de nos comunicar.

Veja o que diz o ECA:  Lei nº 8.069 de 13 de Julho de 1990
Dispõe sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente e dá outras providências.

Art. 245. Deixar o médico, professor ou responsável por estabelecimento de atenção à saúde e de ensino fundamental, pré-escola ou creche, de comunicar à autoridade competente os casos de que tenha conhecimento, envolvendo suspeita ou confirmação de maus-tratos contra criança ou adolescente:
Pena - multa de três a vinte salários de referência, aplicando-se o dobro em caso de reincidência.

Mas, o que tudo isso tem a ver com realidade e valores? Tudo! Se você prestar bem atenção.

A escola faz questão de nas redes sociais, sua página na internet, e, em memorandos enviados na agenda, que adota os mais dignos valores no processo de educação de seus alunos, mas na hora de ser posta a prova fez exatamente o inverso, já que elegeu como forma de argumento os quarenta anos da diretora como forma de se auto intitular uma autoridade sobre tais acontecimentos, mesmo à margem da lei. Ela chegou a afirmar que nos dois outros casos de agressão infantil, os pais eram devedores e, por isso, estariam falando mal da instituição numa demonstração de total falta de ética e arrogância. Se bem que isso justificaria que poderiam ser agredidos? Complicado, né?!

Isso, foi a parte dos valores. E a realidade onde está? Na superfície e nas aparências, pois nem tudo o que se vê, de fato é. São nesses momentos que alquimicamente se faz a separação dos elementos: discurso persuasivo demum lado e fato, ou, realidade, do outro.

Neste episódio ficou claro pra mim que a única coisa que não muda é o comportamento humano que manifesta sua verdadeira natureza diante de suas responsabilidades quando exigidas.

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Raniery

raniery.monteiro@gmail.com
http://mentesalertas.wordpress.com/