terça-feira, 14 de outubro de 2014

A Moral do Ilegal

Meu país é mesmo um caso à parte. Temos belezas naturais magníficas ao mesmo tempo em que convivemos com contrastes absurdos. Historicamente somos um povo acostumado e resignado ao abuso e arbítrio dos governantes que acreditam estar acima do bem e do mal.

Coronelismo é o termo usado para designar uma política onde a elite parasita deste país sempre comanda os rumos e destinos sócio econômicos, sujeitando a grande massa aos seus caprichos, pra atender os seus interesses.

Desde o Brasil colônia a administração pública convive com os desmandos dos poderosos que entendem ser os detentores do que é público. Isto, por sua vez, impede que os serviços estatais cheguem a quem de direito.

Segundo a ONU, se desvia cerca de R$100.000.000.000,00 nessa modalidade de improbidade, no país. De fato, por onde olhamos o caos e o abandono do Estado é patente em relação aos seus serviços. Seja na saúde, segurança pública, educação ou em empresas públicas que se tornaram ninhos de bandidos de colarinho branco.

No entanto, o mais surpreendente, quando se convive com estes criminosos, não é o seu comportamento transgressor e, sim, sua intensa determinação em cobrar a disciplina daqueles que administram. É como se uma coisa muito imunda quisesse ensinar uma outra, apenas suja, ou mesmo apenas empoeirada, como se limpar. Ora, o porco chafurda na lama- essa é a sua natureza! Não pode ele ser exemplo de limpeza pra ninguém.

É assim que na democrática república brasileira os coronés do século XXI comandam com suas botinas sujas a coisa pública. Curioso, é que, quando se lê em seus manuais de disciplina, as menções a valores, aos princípios ou às missões chega-se mesmo a dar a impressão de que se pratica aquilo tudo por lá, quando, no entanto, na prática, o que se constata é uma distância abismal e oposta a esses elementos.
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De fato, os posseiros da administração pública adoram o formal, o aparente, o que está no papel, afinal de contas, isso nada mais é que o retrato fiel de quem são e de como agem. Por outro lado, ficam furiosos quando se expõem seu caráter e desencadeiam perseguições implacáveis às custas do dinheiro público.

Torna-se até repetitivo o assunto já que sempre agem de acordo com este modelo de conduta, ancorados na certeza da impunidade e se garantem nos chamados costas-quentes, que são aqueles que os apoiam e fazem vistas grossas aos seus atos- por conta de suas relações ilícitas.

Em lugares assim, se não se tem um "contato" haverá uma tendência a uma "disciplina" mais incisiva, rigorosa, dura, enquanto que o apadrinhado, a namorada/ amante, o filho (a) gozará da conivência; o que fere qualquer princípio destas mesmas administrações. Eu chamo isso de Princípio da Arrogância. Mas, na verdade é a boa e velha hipocrisia alimentada por egos desequilibrados.

Perceba que os discursos são incisivos: "é preciso a qualquer custo punir os questionadores...", pois são elementos perigosos que contaminam o grupo que, por sua vez, necessita ser controlado com rédeas curtas. Até porque, se assim não for, pode-se por em risco todo o "esquema" montado pra enriquecer ilicitamente a poucos. Imagine o grupo se opondo e resistindo aos desmandos e improbidades, o que não acarretaria? E ademais, não se pode dividir o bolo com todos...

São este tipos de seres que bloqueiam e causam atrasos no processo democrático, pois tendem a inibir aqueles que pretendam torná-lo efetivo ao executar suas funções. Sua moral é suja, ou, imoral, e seus discursos são vazios e dissimulados, pois é no conluio e pelo ardil que planejam suas tramóias. 

E a disciplina, a norma, as regras que tanto se empenham em que se façam cumprir? Somente servem pra atender aos seus interesses e mais nada. As utilizam como meio de controle pessoal e não atendendo ao interesse público. Sua única estratégia é se impor pelo terror e pela emboscada, pois sua covardia não lhes permite encarar de frente aqueles que estão em seu caminho.

Então, se conclui que a tarefa é árdua e o desafio é imenso em se tratando de combater um mal arraigado como câncer que devora o corpo, no entanto, é o que deve ser feito, pois nunca na história humana se conquistou algum direito sem luta. E com o assédio moral não é diferente, pois é uma questão a ser tratada como uma verdadeira guerra.
Raniery

raniery.monteiro@gmail.com