quarta-feira, 29 de outubro de 2014

O Amor do Assediador

Porque do coração procedem maus desígnios, homicídios, adultérios, prostituição, furtos, falsos testemunhos, blasfêmias. São estas as coisas que contaminam o homem;... Mateus 15.19-20

Quando criança lembro-me de assistir na tv um desenho engraçado que somente agora eu entenderia os conceitos por trás dele que são, de fato, interessantes.

O Sombra ("Spy Shadow"- 1967), conta a história de Richard Vance, um espião internacional que teve uma formação mística com um monge tibetano, onde aprendeu o "Poder da Concentração", permitindo-lhe libertar o seu interior na forma de sua própria sombra, com uma consciência independente e sob o seu controle. A sua sombra pode mover-se através das fissuras mais ínfimas, incapaz de ser ferida por qualquer tipo de agressão física e com o poder de tocar os objetos que deseja. Sua única deficiência, naturalmente, é a de não poder combater na escuridão. Fonte: http://tvuol.uol.com.br/

Viver é uma experiência excitante. É o desafio de cada um e nós, e, nisso, todos temos algo em comum. Não significa dizer que é tarefa fácil ou que para alguns não seja uma cruz. Basta uma olhada no estado em que o mundo se encontra para constatar que as coisas não andam lá, essas coisas! 

No entanto, à medida que os anos chegam as experiências se acumulam, nos é dado a oportunidade de aprender com elas. Chamamos isso de amadurecimento. Eu particularmente tenho minhas dúvidas quanto a universalização disso em relação a todos nós, isto é, se todas as pessoas, de fato, amadurecem.

Por outro lado, quem poderia esclarecer tal assunto com maior propriedade seriam os especialistas, e, nada melhor que um estudioso do assunto pra poder apontar a índices de precisão, questões complexas como as dos comportamentos humanos. Foi quando nesses dias, assistindo a uma série antiga de TV que um dos personagens se referiu a outro como Ahab do conto Moby Dick, numa alusão à sua obstinação e seus demônios pessoais e, algo ficou martelando em minha mente; logicamente fui pesquisar e acabei me deparando com inúmeros ensaios filosóficos sobre a obra chegando à conceituação da Sombra dentro da psicanálise junguiana.

Aquele insight foi extremamente positivo no que diz respeito aos conceitos abordados que tem a ver com aquilo em nós que não gostamos que os outros identifiquem. Sim, nossas paixões, vícios, defeitos, etc. No entanto, socialmente, só apresentamos ou representamos o nosso melhor; não é assim nas selfies da vida, nos perfis das redes sociais, diante de amigos e de parentes?

Gostamos de pensar que somos bons e que maus são os outros. É o anjo e o demônio; O bem e o mau; a luz e as trevas... Mas, na existência ocorre que há inúmeros tons de cinza e não somente o preto no branco. 

Segundo os psicanalistas há uma grande probabilidade que ocorra um efeito de projeção nos casos de assédio moral onde o agressor afetado por uma característica positiva do assediado suscite em sua Sombra o lado bom que já teve ou até mesmo ainda o tem sob conflito. Por outro lado, o assediado pode inconscientemente, estar estimulando isso por meio de atos, comportamentos ou palavras.

Tenho um amigo no trabalho, ao qual nutro muita admiração e respeito e que sempre conversa comigo a respeito de algo análogo, sob o ponto de vista da doutrina espírita. Obviamente ele utiliza outros termos e palavras, mas que na essência, apontam para um mesmo procedimento. Como venho pensando nisso a algum tempo, através de uma introspecções, tento encontrar elementos que corroborem com as teorias, ao mesmo tempo em que me propondo algumas mudanças como consequência.

Veja, nada justifica as agressões desencadeadas pelo assédio moral, sobretudo, sob o ponto de vista jurídico que ignora aspectos de transtornos comportamentais, no entanto, e diante de toda a problemática e desgaste envolvidos, se você puder neutralizar a energia negativa oriunda desta dinâmica, que resolva determinados aspectos, acredito que seja de extrema valia e alivio, fora o fato de apontar a boa vontade em superar a questão.

Perceba, então, que se houver algo no assediado que dispare a necessidade de agressão do assediador provocada inconscientemente por aquele e que seja trabalhada a ponto de dissuadir este, penso que é isso o que deva ser feito e, ademais, melhorará sua própria capacidade de assimilar a maturidade. Com isso não quero dizer que o agressor cessará seus ataques, mas que ele não encontrará mais o motivo que impulsiona sua sombra ou que o faça se sentir ameaçado pelo assediado.

De fato, tal projeção aponta para outro um outro lado do agressor que nem nos mais insanos sonhos o assediado acreditaria possuir: a admiração, a fixação, e... o amor que o agressor nutre pelo agredido. Imagino que você esteja espantado com tal afirmação e confesso que me sinto estranho com isso também, mas me lembro de algumas postagens atrás de até brincar com a situação, que é mesmo inusitada. 

Porém, abra sua mente, e use a razão para concordar que faz todo sentido tudo isso quando se dá conta de que eles não largam do teu pé e vivem querendo chamar sua atenção seja como for.  Sua inadequação interna aponta para sentimentos de rejeição que não foram resolvidos na infância e que se tornaram um ciclo vicioso. Porque fora rejeitado, ataca e rejeita e é rejeitado reiniciando o sistema. 

Portanto, você não é odiado por algo ruim, mas é odiado porque o agressor ama algo de bom em você que a muito tempo se perdeu dentro dele e que não foi resolvido.

“E evidente que o mal não pode viver por si mesmo; ele só pode existir quando existe algo bom de que ele possa se alimentar.” Jung

Louco, né? Mas, é isso mesmo! Pense em tudo o que eles se dispõem a fazer e que envolve você. Pense por um momento por que gastariam tanta energia e disposição para ficar em seu encalço, não fosse o fato de...te amarem. ARG!!!!

“O ódio tem muito em comum com o amor, principalmente com aquele aspecto autotranscendente do amor, a fixação sobre os outros, a dependência deles e, na verdade, a entrega de uma parte da própria identidade a eles... Aquele que odeia anseia pelo objeto do seu ódio...“ Václav Havei

Eu costumo dizer que tudo é energia, e se houver algo que se possa fazer pra neutralizar esta que é extremamente negativa, que se faça. Evidentemente que não se deve concluir que o assediador é um coitadinho que mereça sua compaixão, pois isso será um grave erro que o estimulará a te atacar sem que haja defesas. 

Na verdade o que quis foi suscitar uma reflexão ou auto reflexão sobre nossa própria natureza e sobre os conceitos de bem e de mal que nos deparamos em sociedade, onde acredito, nada seja absoluto, mas relativo. 

Portanto, haverá algo de bom no assediador, ainda que sob profundidades, e algo de negativo no assediado ainda que não perceba sendo preciso uma boa dose de humildade e vontade de mudar para seguir a vida e suas incomensuráveis experiências.