sábado, 28 de janeiro de 2012

Assédio moral: a indústria que banaliza a vida


Espertalhão
Dia desses estava pesquisando alguns artigos e matérias pra abordar aqui, quando me deparei com o título de um deles que afirmava que estavam banalizando ações sobre assédio moral. De imediato me coloquei a lê-lo. 

Uma leitura superficial induziria o leitor mais desatento a acreditar que há um complô contra os “empregadores”, pois, segundo as afirmações do autor, a maioria dos processos que tramitam nos fóruns trabalhistas é composta de gente mal intencionada, de uma capacidade maquiavélica, capaz de enganar nossos magistrados.  Na construção de tal artigo o advogado usava e abusava de generalizações superlativas quando queria traçar um perfil negativo dos litigantes- que afirma ser a em sua maioria composta de trabalhadores desonestos e oportunistas.

Fiquei perplexo ao tentar entender como seria possível o sistema judiciário ter tantos operadores do Direito ingênuos ou despreparados a ponto de qualquer um ser capaz de enganá-los com supostas histórias de assédio moral; o que me levaria a concluir que é muito fácil ganhar dinheiro desta forma. Pior: que os diversos profissionais espalhados por um país de dimensões continentais estariam mancomunados com um monte de patifes.

Frases como “não raras vezes”, “via de regra”, “a maioria”, “enriquecimento ilícito”, entre outras, colocadas sistematicamente de forma negativa em relação aos trabalhadores, que estariam mentirosamente forjando situações que caracterizariam assédio moral, levava a crer que é prática comum, e, que nosso judiciário faz vistas grossas, ou é displicente, e o pior, conivente. No mínimo, é uma afirmação, ousada.

Penso que argumentar através de generalizações não é o melhor meio de defender uma idéia, mas quem sou eu pra contestar um cidadão que afirma que isso ocorre todos os dias e num volume tão grande, não é mesmo? Afinal, esse senhor deve ser uma autoridade na questão e deve, também, atuar a muito tempo defendendo “empregadores” pra ter tamanha propriedade para sugerir ao judiciário que dê um basta de uma vez por todas nesta “indústria do assédio moral”, punindo exemplarmente tais aventureiros jurídicos!

Toda a argumentação foi sustentada sobre a hipotética resistência do trabalhador ao controle e poder potestativo do empregador. O empregado, então, passa a elaborar um engenhoso plano de vingança e esperteza que culminaria com indenizações milionárias contra o injustiçado patrão que somente lhe deu ordens legítimas, nada mais.

Segundo Marie-France Hirigoyen, “O assédio moral no trabalho é definido como qualquer conduta abusiva (gesto, palavra, comportamento, atitude...) que atente, por sua repetição ou sistematização, contra a dignidade ou integridade psíquica ou física de uma pessoa, ameaçando seu emprego ou degradando o clima de trabalho”. 

Bom, pela definição da especialista, fica claro que tais comportamentos não se enquadram no conceito de legitimidade que é outorgada às empresas.

Já para Arthur Lobato - psicólogo e jornalista, o assédio é realizado de forma oculta, dúbia, maliciosa, dando margem a diversas interpretações, atuando no psicológico e emocional da pessoa. 

Pode ser que eu esteja enganado, dentro de minha ignorância, mas esta não é a forma mais adequada de se controlar ou exigir produtividade de alguém, portanto é abuso; ou não?

Objetivo do assediador: Desestabilizar psiquicamente, emocionalmente e profissionalmente um funcionário, após um extenuante processo de assédio moral, transformando a vítima em alguém que se sinta incapaz, incompetente, desmotivado, o que justifica o afastamento do trabalho, a perda do cargo de chefia, mudança de setor, ou aposentadoria antecipada.

Se as características acima não se concretizarem em assédio, me pergunto o que fará, então. E se estes comportamentos são violadores de direitos, me parece justo e legítimo provocar a justiça pra que de seu parecer sobre a questão.

Não tenho dúvida de que há pessoas que realmente possuem o perfil traçado pelo autor do artigo, porém, ao contrário dele, acredito que são exceções e não a regra. 

Acredito que classificar pessoas por estereótipos prejudica qualquer forma de avaliação autêntica. Cada pessoa é uma singularidade em si, respondendo por seus atos, daí porque cada caso é julgado especificamente, senão bastaria ao magistrado simplesmente decidir pela classe correspondente. Teríamos algo, mais ou menos assim: trabalhador-malandro; empregador- vítima. Não faz o menor sentido.

Veja você como isto se aplica de forma prática: não havia terminado esta postagem e me deparei com uma irregularidade em meu posto de trabalho que participei ao meu superior hierárquico, mas como ele me vê através das lentes do estereótipo e da estigmatização, optou por me dissuadir de cumprir com a minha função e inverteu as coisas. Basicamente este senhor tentou me convencer que é "a cauda que balança o cachorro" quando sugeriu que eu estaria atrapalhando quem estava irregular e que eu ficasse quieto no meu canto. O assediado é visto como encrenqueiro e ainda que seja competente isso não é levado em consideração.

Recuso-me a acreditar que, entre um exército de magistrados, todos são tão idiotas e sem experiência, a ponto de qualquer um chegar lá, e, levá-los no bico.  Pontualmente, até pode ter um ou outro profissional desmotivado ou mesmo acomodado que decida favoravelmente ao trabalhador, sem sequer dar-se ao trabalho de utilizar todos os recursos interpretativos de que dispõe para tal, o que já acho ser demais fantasioso também. Parece teoria da conspiração contra o empresariado que, de tão fragilizado, é alvo de uma horda de selvagens e está sucumbindo diante de forças ocultas, por demais poderosas. 
Ingênuo
Quem passou ou passa por assédio moral sabe muito bem que é real e não fruto de uma imaginação paranoica ou com mania de perseguição. Quando seu superior o induz a declinar de cumprir com seu dever por conta de esquemas envolvidos, isso não tem nada de invenção. Quando o empregado passa a ser retaliado por não aceitar tal dispositivo, ele sabe muito bem qual é a origem da coisa. Tais ações passam longe de mero controle disciplinar.

Coincidentemente, no mesmo dia em que li o artigo, conversei com um superior hierárquico que me disse que há algumas pessoas que acreditavam que eu estaria “aplicando” em relação ao assédio moral em minha empresa. Conclusões precipitadas e superficiais também são frutos de pessoas que projetam seu caráter sobre as outras ou são gente simples mesmo, no que diz respeito às suas personalidades. É comum se deparar com pessoas que fantasiam um mundo de paranóias e complôs. Vivem realidades alternativas como se participassem de filmes Hollywoodianos, mas quando confrontadas com os fatos e as evidências, não conseguem manter seus discursos vazios.

Em seu Blog “Segurança Portuária em Foco”, este inspetor postou um artigo muito interessante que explica muito bem o que acontece nessas situações. Ele dissertou sobre os paradigmas e como eles norteiam nossas ações e pensamentos- algumas vezes de forma negativa, interferindo em nossas percepções. É como se você somente visse o mundo de determinada forma, condicionado como um animal de circo que se recusa a se libertar dos grilhões, sem saber que é mais forte que eles.

Concordo com algumas coisas com o autor do artigo “a indústria do assédio moral” quando diz que nem tudo é assédio, assim como, também, que nem todo trabalhador é um malandro e com certeza magistrados, de ingênuos não têm nada.

Outra coisa que compartilhamos, é que a indústria do assédio moral deve ser banida mesmo de nossas sociedades. Na hora em que ninguém for humilhado, acuado, perseguido, desonrado em seu ambiente de trabalho, a pretexto de resultados, metas e outras desculpas mais, não será preciso recorrer à justiça pra pleitear indenização alguma. Esta indústria (do terror psicológico e da covardia) tem que saber que não ficará impune, que o preposto que adotar comportamento inadequado responderá por seus atos, que a empresa que não coibir tal prática terá suas linhas de créditos bloqueadas; aí sim, acabaremos com a indústria do assédio moral que é tão antiga quanto a humanidade, desde quando um homem quis dominar o seu igual. 

Da mesma forma que o colega de tal artigo diz não crer em utopias de assédio moral, eu também não acredito que é o trabalhador, hipossuficiente, frente ao poderio financeiro das empresas que, em sua maioria, inventa histórias de perseguição, até porque, é estatisticamente comprovado que são os “empregadores”, em número muito maior, os culpados por tal “fenômeno”, ou seja, os donos de tal indústria.

Só quem já passou por isso e adoeceu sabe o quanto é real a perversidade humana. Falar que é invenção, aplique, utopia, qualquer um fala, afinal língua não tem osso, não é mesmo?

O que é preciso é humanizar as relações de trabalho e criar mecanismos que coíbam tais práticas no meio corporativo, pra que haja trabalhadores motivados, e, por conseqüência, produtivos. Na realidade, todos estão no mesmo barco e querem a mesma coisa: prosperar e construir uma vida mais digna e feliz. De um lado o dono do capital e do outro a mão de obra disponível. O empregador não é nenhum caridoso e nem o trabalhador um irresponsável que não sabe suas obrigações, decorrentes de seu contrato de trabalho. Precisamos acabar com essa visão paternalista e perniciosa que propicia inúmeros conflitos todos os dias.

O advogado, que assina este ácido artigo, ainda menciona que o judiciário proporciona vultosas e injustas indenizações aos ingratos ex-empregados, mas não sei de onde ele tirou tal afirmação, pois, o que tenho acompanhado não reflete a realidade, e, pra falar a verdade, acho que os valores pagos estão aquém do dano causado. Aliás, como se mensura dano? Como recuperar os anos em que uma pessoa definhou diante de uma depressão, stress-pós-traumático, síndrome do pânico, ansiedades, alcoolismo ou suicídio? Bom, se concordarmos que a vida está banalizada pensaremos que ela não vale nada mesmo. Que coisa!

Concluindo: paradigmas como estes, racionalizam interesses que estão em jogo e apontam um resquício das elites dominantes, que se ressentem de não poderem mais satisfazer seu sádico desejo de domínio e controle. Apontam para uma incapacidade de se adaptar às mudanças e demonstra um sintomático transtorno, que cega quem o possui, não permitindo que enxergue o mundo real, conduzindo seu possuidor a devaneios e delírios insanos. São pensamentos esclerosados que disseminam toda sorte de violências e perversidades, transformando o mundo num verdadeiro manicômio. 

Malandro
Realmente é preciso dizer um basta à indústria do assédio moral (a violência) e seus industriais que produzem mais estragos que benefícios.


Raniery
raniery.monteiro@gmail.com