terça-feira, 18 de setembro de 2012

Engrenagem perversa


Desde que nascemos nos é ensinado por nossos pais como devemos nos comportar, e, à medida que crescemos isso é feito pelo próprio meio que nos cerca, através da escola, dos amigos e assim nos integramos à sociedade. Chamamos isso de cultura.

Via de regra, esse conjunto de manifestações comportamentais atende bem ao quesito interação, sem maiores problemas. Os conflitos compõem todo essa complexidade de interações nos chamados choques de personalidade, mas sem maiores transtornos.

Por outro lado, encontramos distorções desse tipo de interação quando pessoas decidem, por algum motivo qualquer, elevar o nível dos conflitos à outra categoria que apontará um tipo de comportamento classificado como cruel e perverso. Isto acontece pela identificação da intencionalidade por trás da manifestação comportamental: o dolo.

Diferentemente do conflito, que é episódico, o assédio psicológico se caracteriza pela ação contínua e que não cessa naturalmente. A agressão opta por mecanismos humilhantes através do abuso verbal, entre outros meios antiéticos. A comunicação é perversa, subjetiva, insidiosa e dissimulada, ou seja, é uma tática que tem como objetivo criar confusão e desequilíbrio.

Os ataques são deliberados e nada fortuitos, pois se tem em mente exatamente o que se quer conseguir, que é o prejuízo da pessoa alvo. Há um grupo de pessoas conhecidas onde trabalho, como ilustração, que deflagraram um processo de linchamento moral que ficou conhecido como o caso mais injusto dos mais de 90 anos daquela instituição, resultando na demissão de um pai de família. Até hoje as pessoas custam em acreditar que a coisa toda foi armada. Dizem que tudo começou como uma brincadeira (brincadeira?) que perdeu o controle, porém a verdade é outra.

Todo comportamento depende de nossa capacidade de aprendizagem e com o assédio moral não é diferente. À medida que os anos passam o agressor refina suas técnicas e se torna cada vez mais perigoso, proporcionalmente à sua capacidade de esconder isso e de demonstrar uma aparência amistosa para atrair os vulneráveis.

Nesta modalidade de conflito distorcido emergem personagens com papéis definidos, ainda que não escolhidos. Há o agressor, a vítima e o grupo que pode ter uma variedade maior de atores como o puxa saco, o competidor social, o indiferente, o torcedor etc. 

Nesse elenco é mais comum o papel de assediador ser protagonizado pelo chefe já que é quem detém a autoridade no local de trabalho, mas pode ser estrelado por qualquer um deles. A vítima normalmente é escolhida entre aqueles que detêm características positivas que de algum modo ameaçam o agressor. 

Já os outros personagens apesar de desempenharem papéis secundários não deixam de possuir destaque como, por exemplo, os puxa sacos que, na realidade, são aqueles que fazem o trabalho sujo para que o agressor principal não seja culpabilizado. Isso, por vezes, acaba confundindo a todos.

Como dito antes, nada é feito ao acaso, sem querer, ou por que se perdeu o controle, mas é calculado friamente para que o objetivo principal seja atingido: a eliminação da vítima. É uma guerra de nervos que pretende levar a pessoa à beira de um ataque. Esta, indignada, passa a reagir de forma aleatória, passionalmente, de forma desorganizada, o que acaba facilitando todo o trabalho do insidioso assediador. 

É exatamente pelo medo que dispara mecanismos ansiolíticos que a derrota é imposta, já que sem autoconfiança e insegura, a pessoa começa a errar ou será levada a isso. Ainda que faça tudo como mandado será criticada, pois já está marcada para não ser vista como competente. A idéia é justificar sua demissão.

Lembro-me de forjarem dois inquéritos, onde pretendiam demitir-me por justa causa, através de mentiras que o responsável pela apuração ficou incumbindo de criar. Perceba que estou falando de uma empresa pública que é obrigada a fazer somente aquilo que a lei diz, imagine se não o fosse.

Como foi dito, o assédio moral é uma manifestação comportamental perversa, que apesar de demonstrar uma falha de caráter ou transtorno do agressor, também mostra que se conhecendo este padrão de personalidade, e, consequentemente, como todo o fenômeno se processa, pode-se ajustar-se para se defender, também. Não se pode cair no jogo do adversário, mas levá-lo para outro campo de batalha e associar-se a aliados mais fortes como a justiça, por exemplo.

Uma coisa que ficou muito clara para mim, no episódio que vivenciei, foi de que se deve manter o controle emocional e não ceder às provocações e chantagens do agressor. Acreditar em si mesmo talvez seja a maior arma que se pode ter, pois na hora certa o agressor cairá, aliás, como ocorreu recentemente com um daqueles que me perseguiam.
Raniery

raniery.monteiro@gmail.com
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