terça-feira, 9 de outubro de 2012

O cão bom e o cão mau


Um ancião índio norte-americano certa vez descreveu seus conflitos internos da seguinte maneira: "Dentro de mim há dois cachorros. Um deles é cruel e mau. O outro é muito bom. Os dois estão sempre brigando". Quando lhe perguntaram que cachorro ganhava a briga, o ancião parou, refletiu e respondeu: "Aquele que eu alimento mais freqüentemente”.(Autor desconhecido)

Para entender o que acontece conosco é preciso saber onde tudo começou. O homem da idade pré-histórica surgiu por volta de 4000. A.C. o que se pode dizer, recente, comparado com seu gênero (homo) que apareceu entre 4 e 1 milhões de anos. De modo geral, dizemos que há um tronco comum do qual se originaram os grandes macacos (pongidae) e os homens (hominidae). Em determinado momento da evolução, os dois grupos se separaram e cada um apresentou sua evolução própria. Os pongidae apresentaram a forma do gorila, chimpanzé e orangotango; os hominidae ou hominídeos, a forma do atual homo sapiens.

E como se deu essa aparente diferença entre nós e os outros primatas? A conclusão dos neurocientistas, à medida que compreendem o cérebro humano é que o gênero Homo “investiu” tudo no desenvolvimento de seu cérebro durante o processo evolutivo, o que trouxe nova perspectiva sobre a evolução humana. Os cientistas estão concluindo que a história da formação da estrutura social é mais importante do que a história da evolução material da humanidade.

Qual foi, então, o segredo para este salto evolucionário? A capacidade que os primatas desenvolveram para viver em grupo, o que mudou significativamente sua estrutura cerebral potencializada pelo uso de ferramentas e linguagem ao longo de sua evolução histórica. Viver em grupo foi decisivo para esse processo.

Para compensar nossa debilidade física, diante de outras espécies, sobretudo, poderosos predadores, nosso cérebro foi dotado de grande capacidade para se desenvolver. O aprendizado foi a chave que proporcionou as mudanças biofísicas em níveis celulares, aumentando gradativamente em complexidade e até em tamanho a capacidade deste órgão. Quanto mais experiências nós vivíamos, mais conexões eram interligadas em nossas células nervosas num ciclo retroalimentativo, em um processo interminável. Aqui, é exatamente o caso da inteligência (poder adaptativo) superando a força.

O fator decisivo que proporcionou o desenvolvimento cerebral, sendo o motor do seu progresso intelectual, foi a pressão ambiental e a luta pela sobrevivência que obrigaram o homem a realizar sempre novos inventos estimulando, assim, sua criatividade e imaginação, e, estes estímulos desenvolveram a sua mente. Pode-se afirmar que nossa melhor ferramenta era (e ainda é) o cérebro- emoções, aprendizagem, racionalidade, etc.

Seres curiosos que somos por natureza, logo percebemos a necessidade de conhecer o meio, o que se dava na prática, explorando-o. Viver em grupos tornava esta tarefa mais eficiente e para isso tínhamos que interagir e se fazer entender. A comunicação fechou este elo e estreitou as relações e melhorou todo o processo: tínhamos outra arma poderosa- a cultura.

Mas, enquanto aos conflitos que temos entre fazer o que entendemos como certo ou satisfazer nossas vontades imediatas? Os psicanalistas podem responder este assunto psicanalítico, o nosso aparelho psíquico. Sigmund Freud, pai da psicanálise, há três divisões de nosso mundo psicológico: Id (os instintos líbidos e primitivos que temos), Ego (nossa consciência lúcida) e o Superego (moral e valores sociais).

Em relação aos conflitos internos do índio ancião acima, lembra-se daquele anjinho e diabinho que aparecem no ombro das pessoas nos desenhos animados? Então, o superego é o anjinho e o id o diabinho. O ego é a parte menos potente do nosso subconsciente. O id e o superego são como o conceito teológico da carne versus o espírito, e batalham em nossa mente no canto do subconsciente, uma área remota que temos- no máximo, mínimo acesso e nenhum controle.

O id são os nossos desejos e vontades primitivas, sendo que Freud o associou principalmente ao desejo sexual. É representada pelos considerados "instintos mais naturais do ser humano". O superego é a razão, a moral, ética e princípios. Representa a racionalidade humana.

Pois, bem o que ocorre é que somos (em termos de estrutura interna) os mesmos humanos da idade primitiva, que precisava sobreviver aos desafios da natureza, tribos rivais, doenças, etc. vivendo, agora, em cidades urbanas do séc. XXI. Aqueles instintos de sobrevivência eficientes para aquele modelo ainda está dentro de nós, não desapareceu. 

Quando vemos os processos de assédio moral se desenvolverem é como se voltássemos às cavernas dando vazão àqueles instintos primitivos, pois, da mesma forma que naquele tempo, por exemplo, fazíamos alianças para derrotar um inimigo comum, fosse uma tribo anômala ou um mamute gigantesco, lançamos mão destes artifícios, ainda hoje- seja o procedimento legítimo ou não. A conclusão, é que temos um sistema que foi moldado para os problemas da idade da pedra convivendo conosco e confrontando todo o stress urbano que nos afeta.

Basta saber que nosso repertório comportamental é influenciado por inúmeros fatores durante o dia e que isso nos torna seres imprevisíveis de difícil decodificação.  Em determinado momento nosso humor é um, segundos depois, tudo mudou. Uma palavra, um olhar, uma falsa interpretação e pronto: a caca está feita. Nossos mecanismos de defesa trabalham o tempo todo e podem nos pregar peças desagradáveis, quando não, até fatais. 

Hoje, ao que parece vivemos no limite. É preciso muito pouco para que se deflagrem tragédias aparentemente absurdas, pelos mais fúteis motivos, mas se olharmos bem de perto, eles estão lá agindo- os nossos instintos- programados para que reajamos diante do que interpretarmos como violência gerando a adaptação necessária ao meio. Por isso, é que se pode dizer que há um fator que não dá para controlar nas interações humanas: é o fator aleatoriedade. Sim, somos imprevisíveis e não computadores lógicos que funcionam com precisão matemática.

Carregamos conosco, em nossos genes, todas as condições necessárias para os conflitos e para agirmos de forma inadequada diante de uma sociedade que se organizou e se estruturou para administrá-los. 

Lembra-se da cultura? Então, fomos nós que entendemos que viver em grupo nos traria vantagens e para isso seria preciso dispor de uma parcela de nossa liberdade em prol de um benefício maior. Seria preciso, a partir de agora, conter aqueles instintos e domesticá-los. Foi para isso que nossa espécie desenvolveu um cérebro tão complexo e desenvolvido para dispô-lo inteligentemente e solucionar problemas. 

A despeito dos instintos estarem lá, querendo sair de dentro da “lâmpada mágica”, somos seus donos, por direito, e não estamos à mercê dos mesmos. Há inúmeros fatores que influenciam nosso comportamento, e, eles são apenas uma parte da história. Mas, como toda máquina ou ferramenta, nosso cérebro precisa ser bem utilizado para que responda corretamente ao que queremos de seu uso.

Sabemos que o conflito é de nossa natureza e conviveremos com isso por muito tempo ainda. Basta um aglomerado de pessoas existir para que a semente da discórdia germine. Mas, somos dotados de inteligência também- que pode variar, pra mais ou pra menos, de uma pessoa para outra, e, cada um desenvolve um tipo diferente dela. 

Para atingirmos nossos objetivos com maior eficiência desenvolvemos relações interdependentes que precisam ser reguladas e orientadas, senão alguém decidirá que deverá subjugar outro. Dentro de nosso repertório cultural criamos mecanismos capazes disso- o Direito. É evidente que sabemos que só a justiça não resolve todos os problemas humanos, mas é o mais próximo que temos de um ideal. E a sanção só alcançará aquele que não conseguir controlar seus instintos e decidir violar as normas cogentes.

Portanto, apesar da ciência explicar a razão por trás de tantos comportamentos inadequados manifestados pelo ser humano, muitas vezes de forma violenta, ela também demonstra que isso não é justificativa para que ocorram sem que haja controle de nossa parte, pelo contrário, demonstra que nosso cérebro é uma poderosa ferramenta capaz de nos tornar adaptados ao meio e de solucionar os problemas decorrentes dele. Não somos reféns de nossos genes primitivos.

Podemos dizer que o conflito é inerente a raça humana, decorrente de nossos instintos ancestrais, mas, também que nossa inteligência decorre de milhões de anos de evolução que permitiu nos adaptarmos ao novo e ainda nos tornou melhor capacitados para soluções de problemas, seja de que ordem for. 

A única coisa que a ciência não tem possibilidade de responder é: qual dos dois lados nós escolheremos- o do instinto ou o da inteligência. Como o ancião disse: se alimentarmos o cachorro mal e cruel ele vencerá, mas se cuidarmos do cachorro bom é ele que sairá vencedor. 

Infelizmente temos visto, pelo mundo, que lado as pessoas estão escolhendo.