quarta-feira, 17 de outubro de 2012

O lado escuro da força


Para saber qual é a real extensão do dano que o assédio moral produz na vida de uma pessoa basta que façamos uma reflexão que nos levará a concluir esta asserção e mais, identificaremos o teor de injustiça que contém.

Quando começamos a pensar em ter uma vida profissional procuramos de imediato uma forma de qualificação condizente com as aptidões que possuímos e que nos proporcione o acesso ao mercado de trabalho. Isso tem um custo: de tempo e dinheiro, mas é encarado como um investimento, pois se pretende na linha final uma vaga em uma empresa para que possamos desempenhar uma atividade e sermos pagos por nossa força de trabalho. A empresa, por sua vez, quer alguém produtivo para que lá na frente obtenha o lucro desejado.

Nada disso acontece da noite para o dia e sem nenhuma dedicação, mas ao contrário exigirá esforço e um senso de objetivo apurado quer seja para atuar em empresas privadas quanto nas públicas. O esforço, então é coroado com o resultado pretendido. Este é o caminho e é desta maneira que a coisa acontece normalmente.

Uma vez locado, suas atividades começam e uma rotina se estabelece. Começam novas amizades, pressões, e vontade de fazer tudo certo e que tudo decorra bem. Em outros momentos, acontecerão erros que serão corrigidos, mas dentro de níveis esperados. Simultaneamente diversos projetos são concretizados: é o carro que se desejava a tempos, o imóvel, o casamento etc.

Não é preciso dizer que tudo isso cria uma esfera de felicidade e realização sobre qualquer um já que produz resultados bons. A sequência natural são as promoções e ascensão profissional e salarial. Acredito que não deva ser muito diferente em qualquer lugar do mundo com uma ou outra diferença de ordem cultural, mas dentro da chamada globalização que padronizou tudo no planeta.

A palavra normalidade foi escolhida de propósito porque deixa claro que permite dentro de certo intervalo que determinadas circunstâncias ocorram sem que sejam encaradas como prejudiciais necessariamente. É o stress por detrás das metas, prazos e resultados possíveis de se atingir. Perceba que não foi adicionado ao processo a ganância e o lucro predatório ou mesmo a corrupção.

Pois bem, já que entramos neste assunto, surgem, aí, alguns fatores que desencadeiam processos de assédio moral. Independentemente de seus deflagradores o fato é que em algum momento alguém se incomodará com seu sucesso e decidirá tirá-lo de você. O que ele justificará para desencadear processos persecutórios que culminem com a destituição daquilo que foi construído com dedicação, esforço e sacrifício, não importa.  O agressor decidiu que te prejudicará, e pronto. Simples, assim.

Sua imagem deverá ser desconstruída, sua capacidade deverá ser questionada, suas ideias minimizadas, erros evidenciados ou criados, ou seja, sua vida deverá ser infernizada somente porque determinada pessoa assim o quis.

Gritos, insultos, difamação, estigmatização, menosprezo, desprezo e outras condutas abusivas que desencadearão sentimentos negativos e afetarão suas emoções para que produzam insegurança em sua vida e coloquem seu emprego sob-risco. A ideia é que pela pressão a pessoa desista de seu posto de trabalho e peça demissão ou seja conduzida por justa causa para que não se arque com os custos indenizatórios.

Aliás, descobri que assediadores adoram prejudicar pessoas, mas detestam assumir a consequência de seus atos. São excelentes transgressores de normas e regras, mas péssimos ressarcidores de prejuízos. Curiosamente utilizam das leis e da justiça para se safarem, muitas vezes contando com setores jurídicos equipados e constituídos de advogados prontos a lhes prestar consultoria, isso, quando não vão além, contando com parceiros de sociedades fraternas que possuem indivíduos de todos os setores, incluindo os judiciais.

Ora, em lugares assim, porque se preocupar com punibilidade e sanção já que se pode lançar mão de artifícios e ardis de natureza questionável sob a ótica constitucional. Minha advogada, por exemplo, sentiu na pele o que estou dizendo quando os documentos de minha ação sumiram do cartório do fórum trabalhista sendo atualmente objeto de inquérito interno. Fora o fato de um determinado juiz ter pedido para sair do caso por ser, digamos, “amiguinho” da ré (empresa que trabalho), isto é, frequentam a mesma loja aqui em Santos, mas pelo menos teve a decência de se identificar como impedido.

Neste quadro, fosse você um assediador, teria qualquer preocupação em abusar psicologicamente de algum subordinado? Não, né! Nem eles. Essa é a vida de quem se sente intocável. O detalhe é que trabalho numa empresa pública, tive que prestar concurso para entrar e me foi exigido uma série de coisas para ser admitido. Eu disse empresa pública, né? Pois, é! Se a empresa é pública por que é, então, que grupos tomaram a posse dela como se deles fossem, ou, a extensão de determinada fraternidade. Aliás, gostaria que alguém que frequentasse alguma delas, aqui ou fora do Brasil, me explicasse por que é que tais lojas estão se tornando covil de bandidos e se distanciando de suas raízes centenárias.

Pois, bem! Sua vida, então, muda do dia para a noite e você se vê acuado, isolado, estereotipado e presencia agentes forjarem toda sorte de mentiras, em inquéritos encomendados, solicitando sua demissão por justa causa. De tanta pressão, adoece e cai em depressão. Durante sua ausência não dão trégua e não há o mínimo de sensibilidade diante de sua recuperação. Lembra? Eles são covardes.

Seus projetos passam, então, a ser postergados e tudo se altera em sua vida: relações, atividades, rotina, etc. Tudo porque um assediador decidiu influenciar sua vida para lhe prejudicar.

A constituição diz que as empresas possuem caráter social, isto é, devem existir não só pelo lucro, mas com um fim de dignidade. Mas, determinadas pessoas ou grupos detestam a democracia, os direitos fundamentais ou personalíssimos, e tudo o que se relacione com a dignidade da pessoa humana, pois seu objetivo final é o poder e o lucro a qualquer custo, onde os fins justificam os meios. Tanto faz se for por meios ilícitos, corrupção, esquemas, fraudes, etc. Quem é dado a tais práticas irá se importar em estraçalhar trabalhadores?

Portanto, fica claro que o assédio moral é um tipo de violência contra o trabalhador que deve ser combatido incansável e inabalavelmente, de preferência via judicial, mas também pela visibilidade dada à ambientes e empresas que se prestam a este tipo de postura réproba.

Em alguns casos talvez a denúncia deva ser dada por via indireta como nos casos de corrupção, nepotismo, fraudes, onde tais agentes se envolvam deixando um rastro de outros ilícitos que os deixam vulneráveis e com algo a perder.

De qualquer forma, se calar, se intimidar e ceder aos assediadores somente os fortalecerá. Por isso, que a sociedade precisa se mobilizar e se rebelar contra esta forma de perversão que solapa os lares de trabalhadores (as), homens e mulheres honestos, cidadãos e cidadãs dignos, que têm suas vidas invadidas por bandidos camuflados. 
Raniery