segunda-feira, 25 de abril de 2011

Os inquisidores


 Somos seres gregários, isto é, gostamos de coexistir.

Desta forma, nos estruturamos socialmente numa interdependência para que possamos sobreviver e subsistir.

Acontece que nem sempre isso funciona como queríamos e a história nos mostra isso de forma categórica.

Ao longo de nossa trajetória verificou- se que o homem quer dominar seu semelhante de alguma forma e impor seu poder. Essa dominação, via de regra, causa muito transtorno sobre quem se pretende controlar.

A partir do século IV, o imperador Teodósio declara o cristianismo como religião oficial por todo império romano, proibindo os demais credos. Da mesma forma que o decadente Estado, a Igreja passou a impor- se sobre as outras religiões, principalmente o paganismo, e, em especial sobre a principal divindade pagã: a Grande Deusa Mãe.

Como o culto à Deusa e às divindades pagãs era muito enraizado entre os povos bárbaros, o catolicismo não obteve o sucesso que esperava em eliminá- los. Uma das estratégias de tentar acabar com a fé em tais divindades era satanizá- las, e senso assim, todo aquele que adorasse qualquer deus que não o cristão, seria um adorador do diabo.

Durante os séculos seguintes a Igreja se consolida sobre as principais nações européias, até que em determinado momento, com a queda das monarquias absolutistas e a ascensão da burguesia, surge o protestantismo e o número de fiéis começa a decrescer entre os católicos. É nesse contexto que, no século IX, surge a estratégia de esmagar a subversão daqueles que decidem trair a religião romana: Na bula Excommunicamus, o papa Gregório funda a inquisição- tribunal da igreja católica instituído para capturar, julgar e punir acusados de heresia.

Inquisição significa o ato de inquirir, isto é, indagar, investigar ou interrogar judicialmente.
 
 Perceba você que a santa igreja não somente julgava, mas caçava e também punia (assassinava). É bem verdade que para não sujar as mãos, entregava suas vítimas ao braço secular que fazia todo o trabalho sujo. Em 1252, o papa Inocêncio IV aprova o uso da tortura como forma de obter a confissão de suspeitos do tribunal.

Dessa forma, todo aquele que negasse a religião oficial dos cristãos seria considerado herege, ou seja, os protestantes, judeus, muçulmanos e pagãos. Vale lembrar que nessa época o Estado era dividido entre o clero, os monarcas e os nobres, numa disputa insana para se impor.

A religião católica possuía status jurídico para legitimar suas ações, tanto que havia até o direito canônico. Veja, então, que nem o positivista mais fanático poderia imaginar contexto melhor para impor leis a seu bel prazer. Bastava dizer que era lei, que estava tudo certo. Era só dizer que o rei sabia, e, tudo era lindo. Fácil assim.

Nem o nazifascista mais descontrolado poderia imaginar mundo melhor; dariam tudo para poder participar daquele momento sombrio da humanidade. O pesquisador Justine Glass afirma que cerca de nove milhões de pessoas foram acusadas e mortas, entre os séculos que durou a perseguição.

Caso você fosse um infeliz que caísse nas mãos de um inquisidor e seu inquérito, seu destino estaria selado; mas pior que isso, muito sofrimento físico, psicológico, e, acredito até espiritual você passaria nas mãos de sádicos clérigos e carrascos. É difícil acreditar que eles não tinham noção do que faziam, mesmo pelo contexto da época, já que desenvolveram sistemas de tortura com requintes de crueldade que somente quem sabe o que quer nessas condições, poderia criar. Eles tinham propósito e objetivos no que faziam, ou seja, consciência plena do que queriam fazer.

É interessante o detalhe de que eles tinham uma predileção macabra por torturar mulheres que, como diziam, eram mais propícias à feitiçaria. Ocorreu assim com Joana D’arc que foi queimada viva, na França, sob acusação de heresia, durante a Guerra dos cem anos, e, muito tempo depois ela foi canonizada exatamente por quem a matou.


Todo um aparato tecnológico fora desenvolvido para infringir dor, destroncar membros, dilacerar órgãos, e, dessa forma, fazer com que o suposto (a) pactuador(a) demoníaco(a) confessa- se sua culpa. Convenhamos, qualquer pessoa debaixo desse tipo de tortura falaria qualquer coisa para acabar com o sofrimento.

Pense bem, mesmo se alguém conseguisse escapar da fogueira, do empalamento ou da execração pública e fosse inocentado, estaria tão devastado, traumatizado e deformado fisicamente que, se sobrevivesse, não restaria muito motivo para querer viver daí por diante. Muitos até confessavam serem bruxos somente para acabar com a tortura e poder morrer; mas o sadismo era tal, que algumas vítimas agonizavam dias ou semanas antes de falecer.

Em determinado momento, os monarcas viram nesse método um meio de obter vantagens políticas e econômicas, pois bastava acusar alguém de feitiçaria para perder tudo o que possuía para o rei ou para a igreja e se ver em desgraça. Exatamente como os Templários, em 1312; Acusação: heresia. Tiveram seus bens confiscados e foram queimados vivos em praça pública.

Ninguém conhecia seus acusadores que podiam ser qualquer um, até crianças. Ora, se você pensou no vizinho invejoso, cunhado recalcado ou no colega de trabalho pilantra, concluiu, então, que é bom viver nos dias de hoje.

O discurso era de moral elevada e de pureza espiritual, tudo em nome de Deus: não só era legítimo, mas santo, bom e correto fazer tudo aquilo, pois era a vontade do Senhor matar, sangrar, torturar, queimar etc.

De qualquer forma, é interessante notar que quem praticava tais atos tinha uma frieza e insensibilidade, ao sofrimento do outro, impressionantes. Você seria capaz de assistir alguém ser queimado em óleo fervendo lentamente e aos gritos, sem se incomodar? Seria a coisa mais natural para você? Quem seria capaz de ter prazer nisso? Que tipo de gente conseguiria ficar indiferente com a desgraça de seu semelhante? Pense.

Ainda bem que o papa João Paulo II pediu perdão por eventuais exageros dos cristãos medievais que culminou com a morte de milhões de seres humanos daquela época. Agora, ele deve estar confortando toda essa gente no além.

Em nossos dias vemos esse fantasma querer ressuscitar por meio de governos despóticos, ditaduras militares, crime organizado, polícias corruptas entre outros.

Se o objetivo da inquisição era o de manter controle pelo medo e deflagrar o terror, poderíamos até ver nisso uma analogia em nossas organizações que praticam a tortura psicológica e moral sobre a massa de trabalhadores para que esses produzam riquezas para os poderosos.

É comum em empresas e órgãos públicos, por exemplo, os chamados inquéritos administrativos que disciplinam seus funcionários.

Acontece que, em determinados casos, essa atribuição é utilizada de forma destorcida e na base da pessoalidade, que se contrapõe justamente aos princípios da administração pública; pois não basta ser legal, tem que ser moral e impessoal e dentro da razoabilidade.

Os inquiridores muitas vezes se utilizam do mecanismo pra eliminar competidores pessoais, desafetos, desestabilizar o grupo e até forjar uma demissão por justa causa- manipulando as informações de tais inquéritos; algo muito similar ao que ocorria nos tempos medievais.

A história nos ensina que a maldade humana não tem limites. O poder não pode ser desmedido, mas tem que ser limitado, por conta dessas aberrações que ocorreram e ainda hoje acontecem.
Por outro lado, tudo tem um preço e cada ação nossa será cobrada pelo Eterno; no final, tudo que enviamos nos é devolvido, cedo ou tarde. Não tem como escapar.

Na Bíblia está escrito que o Deus cristão abomina o sanguinário, o homicida, a falsa testemunha, o que destrói inocentes, o ladrão etc. São princípios que independem de credo ou religião para serem verdadeiros, pois são eternos (atemporais) e estão dentro de nós, em nosso inconsciente e no consciente coletivo: é a lei do retorno.

Ainda bem que, no caso dos modernos inquisidores, temos a justiça que pode ser provocada a intermediar contra possíveis abusos, sendo que não estamos mais diante de um Estado de exceção, mas de Direito.



Raniery
raniery.monteiro@gmail.com