terça-feira, 6 de março de 2012

O trabalho dos gafanhotos

Quando pensamos em interações o quadro que formamos em nossas mentes é o de um complexo número de possibilidades, entre elas, as de aspecto econômico. Sim, porque não temos como dissociá-lo de nossas vidas.

Historicamente essa relação evoluiu entre seus conflitos e abusos chegando aos dias atuais sob certo controle estatal que passou a garantir determinados direitos inatos positivados constitucionalmente.

Modelos, sistemas e teorias foram propostos, mas nem por isso conseguimos chegar a um equilíbrio totalmente saudável. Não fosse as intervenções judiciais o quadro seria muito pior.

Concluímos com isso que se faz necessário estruturar e regular nossas interações, caso contrário, o forte acabará subjugando o mais frágil.

Para exemplificar determinados tipos comportamentais, sobretudo os perversos, utilizamos de analogias. O gafanhoto é uma delas.

Estes insetos são considerados pragas por sua capacidade de devastar plantações e lavouras deixando um rastro de destruição e prejuízo por onde passam. Seu único objetivo é satisfazer seus estômagos e atender ao impulso de uma fome insaciável.

Interessante notar que os gafanhotos atacam em hordas ferozes que não dão a menor chance de defesa para o que estiver debaixo de sua nuvem. Esta palavra (horda) é praticamente a mesma pra designar bullying que por sua vez faz referência às invasões barbaras cuja marca era justamente a crueldade e perversidade daqueles tempos.

Esses bichos nos fazem lembrar da história bíblica que faz menção a libertação do povo hebreu cativo em solo egípcio. Moisés solicita ao faraó que liberte seu povo, pois se não o fizer lançará pragas sobre aquela terra. E foi o que aconteceu. O povo amaldiçoado enfrentou a fome e outros transtornos inerentes a invasão daqueles insetos.

O paralelo é que a vítima de assédio moral sente-se amaldiçoada, e, cruelmente, isso é reforçado pelo grupo que se afasta dela como se fosse portadora de alguma doença contagiosa. Lembro-me como se fosse hoje quando inúmeras pessoas se afastaram de mim, ou pararam de conversar comigo e até mesmo de algumas que, numa excitação subverniente, me hostilizaram. Até pessoas que freqüentaram minha casa não permitiam estar associadas a minha imagem para continuarem a ser aceitas pelo rebanho.

O próprio Cristo cita características destes seres que são como verdadeiros demônios quando diz que "o ladrão não vem senão a roubar, matar e destruir"; parafraseando: o assediador não vem senão a roubar, matar e destruir. Rouba nossa tranquilidade; mata nossa autoestima e destrói sonhos. Tudo isso, evidentemente, se não nos defendermos e nos acautelarmos como faríamos com qualquer outro marginal.

Outra característica das pragas aladas que tem similaridade nas humanas é que tanto uma quanto a outra não produzem nada, mas consomem tudo o que encontrarem pela frente. Seus similares humanos não pretendem galgar suas carreiras pelo esforço e competência, mas pela lei da vantagem e trapaças.

Recentemente onde trabalho ocorreu uma espécie de dedetização. O MPT exigiu um ajuste de conduta, e, como um inseticida, espantou um monte de parasitas laborais. Infelizmente a infestação ainda não terminou. O curioso deste fato é que alguns daqueles que foram expulsos dos locais infestados não se conformaram com a situação, até por quê se acham superiores aos demais, e se afastaram do trabalho alegando, entre outras coisas, stress. 

Fiquei chateado com isso, pois são essas pessoas que maculam a imagem da maioria dos trabalhadores e dão munição para aqueles que acreditam que estão banalizando o assédio moral. Eu contestei esse posicionamento argumentando que não é a maioria dos trabalhadores que utilizam deste expediente, mas uma minoria, ou seja,  são excessões. Curiosamente, na época da infestação, a cena que se via era de satisfação e euforia incontinente; não havia o menor indício de doenças.

O estudo de ecossistemas aponta o que faz com que determinadas espécies sejam bem sucedidas ou não. É o ambiente que proporcionará a prosperidade e a perpetuação de tipos específicos de seres vivos. O mesmo ocorre com os gafanhotos sociais que se instalam em locais onde possam dar vazão à sua natureza torpe. Por isso que se verificará uma constante reincidência destes comportamentos perniciosos que contaminam e adoecem determinados ambientes de trabalho, justamente porque alimentam e criam estas criaturas tenebrosas.

Seja em qualquer lugar, desconheço um único que sinta-se à vontade no meio destas pragas. O caminho natural é pela eliminação ou pulverização dos nefastos insetos predadores. Uma coisa é certa- ou elimina- se a causa do problema ou arca- se com os prejuízos. E todo assediador causa prejuízo ao local que o abriga e lhe dá guarida.

Portanto, caso as empresas decidam se tornar sérias adotando medidas rígidas de controle sobre o assédio moral experimentarão um ambiente mais produtivo e lucrativo, mas senão, o que se verá é um eterno ciclo de prejuízos que virão de afastamentos, processos judiciais e queda de desempenho. Fora o fato de que,             por conta de tudo isso, seus 
gestores experimentarão 

aborrecimentos e visibilidade 
negativa desnecessários. 
A pergunta que se faz é: vale a 
pena?


Raniery
raniery.monteiro@gmail.com