sexta-feira, 2 de março de 2012

A origem do mal



Dentro de um ambiente corporativo, composto das mais diversas pessoas, existe inúmeras histórias pessoais, objetivos e expectativas, entre elas o de ascender na carreira. Ocorre que alguns conseguem atingir suas metas e entre esses, encontram-se, digamos, pessoas com problemas no exercício do poder. Melhor seria dizer, pessoas que causam problemas a outras nesse exercício.

Tudo tem um começo, uma origem, uma fonte, e, no assédio não é diferente. Quando um perverso está em posição de comando, seu ego não admite o questionamento, a crítica ou outra idéia que não contenha a rúbrica de sua assinatura.

Onde eu trabalho, por exemplo, há um termo pra definir este comportamento: melindre. Na minha terra a gente chama isso de maricagem; onde já se viu homem ficar magoadinho! 

Voltando à nossa dissertação, o insidioso, quando contrariado, se enfurece, pois interpreta tal ação como uma afronta porque entende que chefiar é sujeitar e, portanto, justifica o assédio alegando insolência por parte do abusado empregado.

Possíveis vítimas são enxergadas, então, por determinadas características que são repudiadas pelo agressor, dentro de sua escala de "valores". 

Portanto, se uma pessoa reage ao autoritarismo, resiste a abusos ou possua uma integridade moral acentuada, faz com que nasça, na mente do agressor, um incontrolável instinto de desprezo e desvalorização, e, a partir deste momento, terá seu destino traçado. Isso mesmo, eles se acham senhores das vidas das pessoas e não que sejam covardes incompetentes.

Os discursos fascistas projetam sobre o assediado a culpabilidade pela perseguição e elaboram desculpas que apontem suposta incapacidade, indisciplina ou insubordinação, mas pelo contrário, é exatamente o oposto que ocorre- geralmente o alvo é uma pessoa de reconhecida competência e, em alguns casos, worcaholic inveterada. Por trás disso, na realidade, é o complexo de inferioridade que faz com que o tirano chefe sinta-se ameaçado.

O grupo (ou um grupo) passa, então, a reproduzir o comportamento
do chefe para ganhar a atenção, carinhos e afagos dele. Em seus delírios imaginam que se o agradar, tornando-se seus mascotes de pirata, conquistarão a segurança e não serão alvo de sua fúria. Doce ilusão de quem não teve a capacidade de avaliação precisa para saber que são apenas objetos que serão descartados quando não forem mais necessários.

Em relação ao fenômeno perverso, uma vez sedimentado o assédio, a vítima passa a ser estigmatizada num processo que se dissemina por todo o ambiente. Esta estratégia fortalece o pequeno ditador que utiliza de sua influência, como autoridade local, pra classificá-la como "de difícil convivência", mau caráter, louca etc. Em minha empresa há um padrão  de ataque à vida moral das pessoas, muitas vezes focando suas opções sexuais ou comportamento sexual.

As injúrias e calúnias, que são uma consequência do conflito, magnetizam-se sobre a pessoa a ponto de se confundir com a mesma e não a abandona mais. Ressalta-se o eficiente trabalho dos bobos da corte do chefe que contribuem na propagação das ofensas.

Acuada e isolada e sem chance de se defender, a vítima desmotiva- se completamente, o que interfere em seu desempenho. Isso será usado contra ela. Processos de absenteísmo se instalam, já que a total deterioração do ambiente laboral produzem problemas de doenças e desânimo. O oposto também acontece, isto é, o presenteísmo que faz com que o trabalhador desempenhe suas funções doente, por medo de perder seu emprego.

Desanimada e com a guarda baixa, aos poucos e a cada ataque, aquela pessoa perde sua auto estima e, por consequência, sua autoconfiança, sendo dilacerada a cada saraivada de críticas. 

O assediador esmera-se em torná-lá errada: se faz algo de positivo, ignora-se ou minimiza-se; se ela não compreende uma ordem dada, geralmente de forma confusa, é insultada aos gritos; se tem uma idéia, cafajestemente lhe é roubada e recebe-se os méritos em seu lugar.

Posto isso, fica claro que a última coisa em que se pensa nestas interações perversas é a disciplina, mas na realidade é o sadismo do agressor, associado a sua inadequação social e incompetência em liderar grupos, a verdadeira origem deste mal que assola o trabalhador promovendo verdadeiras carnificinas psíquicas.

Por isso, que o único caminho possível pra se tentar alterar esta realidade, em alguns casos, é o jurídico, pois é preciso provocar 
a força do Estado pra se
restabelecer o equilíbrio 
alterado.


Raniery
raniery.monteiro@gmail.com