domingo, 17 de junho de 2012

Conexões nervosas

Que o assédio moral é baseado em pressupostos perversos ninguém discute.  Todavia, decodificar e identificar seus atos, estrutura, e emaranhados é que é difícil. Mas, quando se trata de fazer o mal há uma tendência de que agressores se unam.

Dificilmente se verá um terrorista moral agir sozinho, pois precisa de uma estrutura que lhe dê suporte e segurança. Sendo assim, é natural que se estabeleçam laços de afinidade com quem se identifica com suas condutas agressivas.

Impressionantemente, o insidioso encontra lacaios que o sirvam e se prestem a executar seus sórdidos intentos a troco de bagatelas. Essas pessoas se vendem por qualquer coisa já que não possuem o menor amor próprio. Vislumbram oportunidades que acreditam ser relevantes e se sujeitam às manipulações daquele que se apossou de suas vidas.

Também há os "parceirões" de maldades. São os contatos de outros setores, como RH, Dep. Pessoal, Assistência Social (?), ouvidorias etc. São estas conexões que proporcionam o arremate final, já que, para que possam legitimizar seus atos forjados precisarão dos meios adequados para tal. 

A coisa funciona da seguinte forma: no momento em que alguém é escolhido como alvo a ser atingido, basta uma ligação para o setor que "oficializará" as punições para que o "amigão" busque na legislação algo que demonstre a indisciplina ou insubordinação daquele que deverá ser descartado. É pura armação.

Acontece que a vítima, na maioria das vezes, sequer sabe do que está acontecendo nos bastidores sórdidos, por isso que se torna alvo fácil dada a covardia de seus antagonistas.

Em empresas estatais, que deveriam seguir os princípios da administração pública, este tipo de postura é ainda pior. Lá, agentes que teriam que se portar segundo critérios como da impessoalidade, legalidade e razoabilidade utilizam dos mais covardes expedientes para se livrar de um desafeto. Forjam inquéritos, onde não será dado o direito ao contraditório e ampla defesa em consonância com o devido processo legal; Agem com excesso de rigor com o assediado, mas condescendentemente com seus puxa sacos; atuam com excesso ou abuso de poder e desvio de finalidade, amparados na total certeza de que sairão impunes; entre tantos artifícios mais.

Sabedores que para a investidura do cargo, o servidor necessita seguir os estatutos ou códigos manipulam, segundo seus próprios interesses e intenções, os meios pelos quais deveriam observar os objetivos da administração que em última análise deve atender ao interesse público.

Em qualquer dos casos contam com a inadequação da vítima em se defender, já que em posição desvantajosa, por sua inerente hipossuficiência, estará em posição desigual de combate. Esta condição inferior, aliás, é buscada pelos agressores, cuja meta é derrubar o fragilizado trabalhador(a) e daí não ter problemas de um contra golpe qualquer. 

Os perversos repudiam aqueles que conhecem seus direitos ou questionam seus abusos. O controle e a subjugação do outro é o que alimenta as suas almas doentes. Não suportam a idéia de que serão expostos, e, para isso, lançam mão de ameaças e chantagens. Controlar o grupo é tarefa primordial que será levada a cabo por seus "fiéis cachorrinhos".

Observe que tudo deve ser feito para que pareça estar em perfeita sintonia com os aspectos legais. É a formalidade da violência. São ações premeditadas que foram refinadas pelos anos em que colecionaram vítimas. Por isso que há uma característica de coisa sombria: não se vê o que está acontecendo, mas sabe-se que está. É o tão famoso subjetivo; são as tramóias.

Estas arapucas são preparadas para que se caia, sem chance de escapatória. Nada é tratado diante dos olhos ou ouvidos do assediado. É feito às portas fechadas. O grupo é manipulado para que pense que o deflagrador do episódio é aquele que está sendo agredido. 

- "Ora, não fosse assim porque é que o "chefinho" está tão bravo com ele, argumentam os inocentes e excessivamente crédulos".

- "Ah! Bem que ele merece ser escolachado, afinal pediu para que isso acontecesse. Quem ele pensa que é para questionar o patrãozinho! Replica o invejoso competidor".

- "Nossa! No meu tempo a gente sequer ousava levantar os olhos para o encarregado, afinal precisamos do emprego, e, manda quem pode, obedece quem tem juízo: diz o servil chefe de seção".

A turma da patrulha fica responsável por ser a intermediação entre o terrorista emocional e o grupo, ora para disseminar suas intrigas, ora para colher informações. Nada pode fugir ao controle de nosso paranóico atormentador. É uma verdadeira teia ou rede de intrigas. É o controle pelo caos, insegurança, desinformação e medo. 

O indivíduo isolado é fagocitado pela manipulação perversa, definhando aos poucos, sem energia, destruído em sua autoconfiança, se desestabiliza. Está feito. Objetivo atingido. É uma questão de tempo.

Adoecido, desanimado, o trabalhador sucumbe diante da saraivada desenfreada e desiste. Se não pede demissão, é demitido sem justa causa por desídia, incompetência, incontinência, mau procedimento ou outro termo jurídico qualquer, não importa, desde que seja descartado.

Porém, há um problema para o nefasto acossador. E se for denunciado? E se por acaso a coisa se tornar visível e descobrirem tudo? Pra isso será preciso convencer a vítima de que de nada adianta reagir, pois não conseguirá se defender, afinal, " vai bater de frente com a chefia?" advertem os papagaios de pirata, em coro, treinados pelo ditadorzino local. Desta forma está resolvido o problema da reação e a pessoa sequer tenta lutar e se entrega sem esboçar qualquer resistência. Está programada para perder. Jogo rápido, jogo fácil.

Mas, e se as coisas não saírem conforme o combinado? E se o assediado reagir? E se o agressor for denunciado? Aí, então, seu castelo começa a ruir. Era tudo o que não poderia acontecer. É o começo de sua queda. Perdeu-se o controle. Naufrágio à vista, mas não sem grunhir. Mesmo no chão assediadores são traiçoeiros e farão de tudo para se safar. Sua covardia e falta de escrúpulos não conhecem limites. Ainda mais que poderão contar com seus  apêndices, digo, colaboradores fiéis.

Será preciso paciência e determinação para suportar o período durante o qual os processos judiciais levarão para estabelecer seus procedimentos decisórios. Deve-se levar em conta o convencimento que o juíz fará com base na sustentação de ambas as partes. Cinismo, mentira e dissimulação continuarão a fazer parte do pacote, daí porque deve- se provar muito bem, por meios lícitos, o assédio moral para que o agressor não deixe de ser punido.

Concluindo, a violência moral nada mais é que uma espécie de guerra. É uma guerra psicológica, mas é uma guerra. Portando, conhecimento, treinamento, fortalecimento são pré requisitos para enfrentar este inimigo. Aliás, conhecer o inimigo é uma prerrogativa se quiser sobreviver. Sobretudo será importante encontrar aliados como a família, profissionais, amigos e a fé em si mesmo.

Se você estiver sendo assediado, venda caro ao assediador sua decisão de te importunar. Porque é que você seria complacente com quem decidiu te destruir? Se tiver que ser devorado que pelo menos deixe um gosto amargo na boca do agressor para que ele pense duas vezes antes de te importunar de novo.
  

Raniery
raniery.monteiro@gmail.com