domingo, 23 de janeiro de 2011

Sexo, Don Juans e muito choro!


O mito:

Conta o mito que Liríope, uma ninfa, passeava pelas margens tranqüilas do rio Cefiso quando o rio, intrépido em sua energia sexual tomou-a para si. Liríope engravidou. Teve uma gestação penosa e indesejável. O parto, entretanto, fora jubiloso, a criança a que ela dera a luz era de uma beleza inimaginável. O menino chamou-se Narciso e cresceu belo como jamais um ser humano conseguira ser. Impressionada com tanta beleza, Liríope procurou Tirésias, um cego que profetizava. Liríope queria saber quanto tempo viveria Narciso e qual o seu destino. Tirésias respondeu o seguinte: “Viverá enquanto não se deparar com sua própria imagem”.

Narciso cresceu. Tornou-se desejado pelas deusas, pelas ninfas e pelas jovens da Grécia inteira. Entre as grandes apaixonadas estava a ninfa Eco. Esta jovem ninfa foi, numa ocasião, friamente repelida por Narciso. Eco então se isolou e se fechou numa imensa solidão e acabou por transformar-se num rochedo capaz apenas de repetir os derradeiros sons do que se diz. As demais ninfas, revoltadas com a insensibilidade e frieza de Narciso, pediram vingança à deusa Nêmesis. Esta o condenou a amar um amor impossível.

Então, num verão enquanto caçava, Narciso percebeu que estava sedento. Debruçou-se sobre uma fonte para mitigar a sede. Enquanto estava debruçado sobre o espelho das águas, viu-se. Viu a própria imagem refletida na água e então, não pôde mais sair dali: apaixonara-se pela própria imagem. Ali mesmo morreu e seu corpo, deu lugar a uma delicada flor amarela, cujo centro era circundado de pétalas brancas. Era o narciso.

O perfil: 

Narcisismo

O que o jovem Narciso amou foi a sua alma. Ele jamais pôde abandonar as águas paradas da fonte. Narciso cometeu o suicídio porque ao recusar-se a abandonar a fonte, deixou de comer motivado pela desilusão: a imagem não possuía equivalência no mundo real e objetivo. Assim são os narcisistas- pessoas perdidas em si mesmas.

Por definição, narcisista é um sujeito que recria o mundo a partir de si próprio. É auto-suficiente, onipotente e tudo o que pensa e diz é o que conta. 

O narcisista é um vampiro emocional a quem se dá amor de forma irrestrita, mas ele nunca se sacia ou retribui e acaba sugando a vida de quem se relaciona com ele. Em outros aspectos da vida, eles se comportam de forma semelhante. Tudo o que os outros fazem está mal feito e eles sempre podem fazer melhor. Fica-se com aquela sensação desagradável de ser um idiota crônico, quando se convive com um narcisista.

É muito provável que o narcisista em sua infância tenha sido traumatizado no relacionamento com os pais. Não suportou a dor do trauma. Recusando-se, criou na sua mente um mundo idealizado, onde tudo é belo, colorido e perfeito (estado de entorpecimento, torpor). É um bebê num corpo adulto. E como tal quer parecer-se com os pais idealizados. Como o Narciso do mito, não se alimenta. Isso significa que não pode receber nada que venha de fora. Está trancado numa carapaça rígida e forte.

O narcisista possui baixa auto-estima, isso implica dizer que na realidade, os pais foram maus, falharam com ele. Sente vergonha de não ser o que pretendia ser, ou seja, seu estado narcísico é uma defesa contra sua dor primeira. É por isso que o narcisista não suporta ser contrariado e nem aceita que lhe digam que tem defeitos (que está sempre nos outros todos, mas nunca nele). Como todo ditador que se preze, o narcisista precisa de platéia que o admire de forma incondicional e irrestrita. É um dependente.

Síndrome de Don Juan:

Trata-se de um padrão de personalidade caracterizado por uma pessoa narcisista (traço feminóide), enamorada, inescrupulosa, amada e odiada e que faz tudo valer para a conquista de uma mulher; possui uma forte compulsão para sedução, que evidencia um padrão comportamental.

Necessita seduzir o tempo todo, principalmente aquela conquista que é difícil, e, que se apresenta como desafio; uma vez finalizada, perdem a graça. Em um ciclo interminável vagam de relacionamento em relacionamento. Eles não se apegam a ninguém, partindo logo em busca de novas conquistas, sendo que pra isso se valem de quaisquer meios para atingir seu objetivo, entretanto, os sentimentos da outra pessoa não são levados em conta.

O aspecto de desafio mobiliza o Don Juan fazendo com que a conquista amorosa tenha ares de esporte e competição, muitas vezes convidando amigos para apostas sobre sua competência em conquistar mulheres. 

Deve haver significativos sentimentos homossexuais latentes nesses indivíduos. A teoria é que, levando para a cama a mulher de outro, o Don Juan estaria inconscientemente se relacionando com o marido, motivo maior de seu prazer. Tanto que é maior o prazer quanto mais expressivo é o marido ou namorado traído.

A conquista compulsiva do Don Juan serve-lhe para melhorar sua sensação de segurança e auto-estima, isso não significa que seja, obrigatoriamente, mais viril ou mais ativo sexualmente, mas que possuem a habilidade em oferecer sempre às mulheres tudo àquilo que elas mais estão querendo ou desejam ouvir. Entretanto, uma vez que possua o que deseja, já não o quer mais. 

Nesse sentido, todos eles são sempre muito inconstantes, desempenham papeis sociais sempre teatrais e exclusivamente dirigidos à satisfação de suas conquistas, por isso fazem sempre o tipo "príncipe encantado", tão cultuado pelo público feminino. Eles têm habilidade em perceber rapidamente os gostos e franquezas de suas vítimas e, são igualmente rápidos em atender as mais diversas expectativas.

Há quem considere o Don Juan um imaturo afetivo. O aspecto volúvel e irresponsável pela constante troca de relacionamento pode ser indício dessa imaturidade emocional e indica, sobretudo, uma completa carência de responsabilidade ou medo de assumir os compromissos normais das pessoas maduras (casamento, família, filhos, etc.).

Don Juan só existe em decorrência da existência da vítima, ou seja, o Don Juan só tem sucesso passando-se por príncipe, encantado enquanto houver mulheres em busca de príncipes encantados.

Características:

O desprezo para com o sentimento alheio pode ser critério para o diagnóstico de Sociopatia ou Personalidade Anti-Social.

Entre os critérios do Transtorno Anti-social da Personalidade do Don Juan estariam esses itens:

Fracasso em conformar-se às normas sociais com relação a comportamentos socialmente aceitos.

Propensão para enganar, indicada por mentir repetidamente, usar nomes falsos ou ludibriar os outros para obter vantagens pessoais ou prazer.

Impulsividade ou fracasso em fazer planos para o futuro.

Ausência de remorso, indicada por indiferença ou racionalização por ter ferido, maltratado ou roubado outra pessoa.

Acentuados sentimentos de inadequação envolvendo o desempenho sexual ou outros traços relacionados a padrões auto-impostos de masculinidade ou feminilidade.

Sofrimento acerca de um padrão de relacionamentos sexuais repetidos, envolvendo uma sucessão de amantes sentidos pelo indivíduo como coisas a serem usadas.

Sofrimento persistente e acentuado quanto à orientação sexual.

Uma história:

Era mais uma noite de pagode que prometia. Maria Creusa estava decidida a se divertir pra valer, e, lógico- “beijar muuuito”- como dizia.  No barzinho a rapaziada caprichava no batuque, a balada estava “bombando”. Casa lotada, gente bonita, bebida “comendo solta”, estava tudo do jeito que era pra ser. Eis que surge em meio à fumaça de gelo seco o príncipe do samba, com seu molejo inconfundível, e sorriso de comercial de pasta de dente. “Sim, é o homem de meus sonhos”, sussurrou Maria, toda entusiasmada e com borboletas no estômago. Foi amor à primeira vista.

Começou um papo animado, jogos de sedução, frases com duplo sentido e aquela garota romântica tinha certeza: encontrara o homem de sua vida. Como poderia ser diferente se Gabriel dizia coisas que a fazia se sentir nas nuvens e quase levitar de felicidade.

Num determinado momento uma amiga de Maria aproxima- se após o anjo do pagode ter ido buscar mais bebidas e adverte a menina apaixonada da fama de “garanhão” do rapaz, mas acabam discutindo, pois Maria acredita que a amiga está é de olho no bonitão.

Dali por diante os dois passam a se encontrar com mais frequência e acabam decidindo namorar sério. A coisa estava indo de vento em popa. Finalmente a felicidade batera na porta de Maria Creusa.

O camarada era demais, parecia vereador, tudo nele era perfeito, até demais pra ser verdade. Dizia que tinha planos para o futuro que seria empresário de sucesso e ainda estaria na TV com sua banda (“Charme irresistível”), mas, vivia numa pindaíba daquelas e pedia com frequentemente dinheiro pra todo mundo. Chegou a roubar sua própria mãe que lhe confiara o dinheiro da venda de um apartamento. 

Na verdade ele era um tremendo 171, o rei da lorota, mas, as evidências não eram suficientes pra Maria enxergar, pois estava entorpecida e cega por conta do envolvimento emocional (o vínculo que cega) que, aliás, só partia dela.

Só que aquele anjo já não batia as asas como antes, e, de príncipe encantado passou a mostrar sua verdadeira face.

A esta altura do campeonato, já com sua auto estima drenada, ela já não tem certeza de que a felicidade chegou mesmo em sua vida e, o que já não estava bom, piorou ainda mais quando bateu em sua casa uma garota procurando por Gabriel e dizendo que o filho que carregava em seus braços era dele. 

Acontece que o garotão viril não conseguia conter-se e, mesmo estando com alguém, saia com as antigas namoradas, afinal, como dizia seu pai- “ele não quer se casar mesmo, que é que tem?” Aliás, seus pais apoiavam o filho em tudo, estivesse certo ou não. Tinham medo de perder o amor do filho. Exatamente como aponta em um artigo recente no Huffington Post, Rob Asghar, ensaísta e articulista norte-americano- “estão criando filhos sem limite algum. Inseguros, eles temem que o filho não goste deles, cedem a qualquer pedido das crianças”. O resultado é uma geração narcisista (que ele chama de "geração N") que se sente no direito de tudo, sem precisar trabalhar duro por nada. 

E parece que o filho exercia um poder hipnótico sobre eles como uma doença. Cada namorada que ele trazia pra casa, eles namoravam juntos (coisa bizarra, diga-se!) e, se terminava o romance, eles também terminavam. Desde pequeno não impunham limites ao filho e tudo faziam pra ele sem que a criança precisasse esforçar- se pra nada. E dessa forma, o pequeno anjo (caído), aprendeu desde cedo que poderia ter tudo o que quisesse, e, ai de quem lhe dissesse não. E assim, no auge de seus trinta anos ainda estava na “aba” dos pais, já que não precisava ser responsável.

Maria Creusa já estava cansada das traições, de ser tratada sem respeito como se fosse um trapo qualquer e ver sua auto estima ser jogada no lixo. Quando pensava que não dava pra piorar, vem o desfecho: acusada por Gabriel de desgastar a relação anuncia-lhe que conheceu outra pessoa e que terminarão o namoro. Chorando, Maria pergunta-lhe onde conheceu tal pessoa, e o garotão lhe disse, numa tranquilidade ímpar, que foi no mesmo bar que tocava pagode, onde conheceu Edilene, sua nova conquista.

Desse jeito assim, o anjo bateu asas e voou deixando para trás, aos pedaços, o brinquedinho que perdeu a graça: Maria.

Conclusão:

A grande verdade é que, o Don Juans deixa atrás de si um rastro de devastação emocional nos relacionamentos em que se envolvem, já que, em sua lógica, não precisam respeitar ninguém, e se “não vão casar ou constituir família”, também não precisam ser responsáveis. E o mais importante, papai e mamãe os apóiam. Com base nesse pensamento calculista, o que importa se sou um “gafanhoto parasita” ou se magôo os sentimentos das pessoas? Pra que se preocupar se não preciso assumir as consequências por meus atos? Pra que ser “certinho” se terei em casa quem me conforte e passe a mão em minha cabeça toda vez que eu cometer algo imoral ou aético com outra pessoa, afinal, se essa pessoa é só mais uma “outra qualquer”, por que esquentar a cabeça não é mesmo? 

E se essa “outra (o)” for você? Será que esses anjos, princesas e seres super especiais valem o preço que será pago? Eles (as) estão por aí à espreita procurando os “desavisadinhos (as)” e vulneráveis para dar o bote, seja lá no pagode, nas redes sociais da vida, ou na esquina de nossos bairros.

Se nas devastações emocionais e estelionato eles causam transtornos, o que dizer então nas situações que acabam em tragédia como no Filme “fugitivo”, baseado em fatos reais: no final dos anos 40, um casal de psicopatas, Martha Beck (Salma Hayek) e Raymond Fernandez (Jared Leto), conhecidos como "Lonely Hearts Killers" cometem uma série de crimes bárbaros. Eles fraudavam e matavam viúvas de guerra, que respondiam a anúncios de jornais (as redes sociais da época) nos quais Ray se descrevia como um amante latino. Ironicamente ele conheceu Martha desta forma, mas quando se encontraram foi amor à primeira vista, talvez por ambos gostarem de sexo intenso e dinheiro fácil. Ao cometerem assassinatos, fazia parte do plano de Martha se fingir de irmã do assassino. Enquanto mais mortes aconteciam, os detetives Elmer C. Robinson (John Travolta) e Charles Hildebrandt (James Gandolfini) decidem fazer qualquer coisa para capturarem Martha e Raymond. O fim deles é a cadeira elétrica, mas até serem pegos mataram muita gente inocente.
Narcisismo
Errar, todos nós erramos (mentir, trair, dissimular etc.) eventualmente, não se trata aqui de falso moralismo, mas de reconhecer e identificar um padrão comportamental destrutivo, egoísta e que leva prejuízo de alguma forma em quem se vê vítima de um predador (a) amoroso.

Portanto, todo cuidado é pouco!
Raniery