domingo, 1 de julho de 2012

Campo de concentração laboral


A Alemanha nazista construiu cerca de 20.000 campos para aprisionar seus milhões de vítimas. Os campos eram utilizados para várias finalidades: campos de trabalho forçado, campos de transição e campos de extermínio construídos principalmente, ou exclusivamente, para assassinatos em massa.

Desde sua ascensão ao poder, em 1933, o regime nazista construiu uma série de centros de detenção destinados ao encarceramento e à eliminação dos chamados "inimigos do Estado". A maioria dos prisioneiros dos primeiros campos de concentração era formada por alemães considerados inimigos do nazismo: comunistas, social-democratas, ciganos Roma, Testemunhas de Jeová, homossexuais e pessoas acusadas de exibir um comportamento "anti-social" ou fora dos padrões sociais (nazistas, evidentemente).

Estas instalações eram chamadas de campos de concentração porque nelas os detentos ficavam fisicamente "concentrados".

Os nazistas abriram campos de trabalho forçado onde centenas de milhares de prisioneiros morreram de exaustão, inanição e maus tratos. Em alguns campos, médicos nazistas usavam os prisioneiros como cobaias em suas experiências “médicas”.

Construíram câmaras de gás para tornar o processo de assassinato em massa mais eficiente, rápido e menos pessoal para os executores. Aliás, assediadores também não gostam de sujar suas mãos e para isso contam com seus lacaios servis. Câmaras de gás eram aposentos fechados que recebiam gás letal em seu interior para matar por asfixia a quem estivesse dentro.

Milhões de pessoas foram aprisionadas e submetidas a todo tipo de abuso nos campos nazistas. Só nos campos de extermínio, sob a administração das SS, os alemães e seus colaboradores mataram cerca de 2,7 milhões de judeus. Apenas uma pequena parte dos prisioneiros que lá foram colocados conseguiu sobreviver.

Feita esta breve introdução, cuja idéia é ilustrar o terror sofrido por milhões de pessoas diante deste regime como analogia ao que outros tantos milhões sofrem todos os dias dentro de empresas, cuja conduta similar pauta-se pela perversidade, guardada as devidas proporções, evidentemente.

O que parece exagero explica-se facilmente quando constatado os efeitos que as práticas de assédio moral causam na vida dos trabalhadores.

O impacto em sua saúde física, mental e emocional é incomensurável se levarmos em consideração os traumas que acarretam e que jamais serão apagados da memória daqueles que sofreram de tais abusos. É uma destruição canibal já que todos os dias minam e arrancam um pedaço da vida do trabalhador(a).

Guerra psicológica, bombardeio emocional, stress pós-traumático são algumas expressões utilizadas por aqueles que vivem diuturnamente agressões gratuitas, sem fim objetivo, com caráter de sadismo, que chefes ou grupos perversos acometem pessoas elencadas como alvos.

Pesquisas apontam que o tempo médio de resistência de abusos em homens é de dezoito meses e mulheres de quinze meses, com efeitos devastadores, o que dá para chegar a uma conclusão do alto grau de violência que este fenômeno produz. O que não causa, então, em quem sofre durante anos desta perseguição?

Já ouvi, por exemplo, que a vítima deveria pedir demissão se acha que está sendo violada em seus direitos, e, se permanece, conclui-se que é masoquista. Tais teorias só não explicam questões como a idade do assediado que, no Brasil, por exemplo, se tiver chego aos 40 anos sofre preconceito no mercado de trabalho e passa a ter dificuldade de se realocar. Se, servidor público, conquistando sua vaga, com muito sacrifício, a despeito, inclusive de fraudes, e já estabilizado  ter que começar do zero, ainda mais abalado e doente. 

Assim como os nazistas, os agressores adotam diversas estratégias de impor seu psicoterror como forma de extermínio:

Escolher a vítima e isolá-la do grupo;

Impedir de se expressar e não explicar o porquê;

Fragilizar, ridicularizar, inferiorizar, menosprezar em frente aos pares;

Culpabilizar/responsabilizar publicamente, podendo os comentários de sua incapacidade invadir, inclusive, o espaço familiar; 

Desestabilizar emocional e profissionalmente. A vítima gradativamente vai perdendo simultaneamente sua autoconfiança e o interesse pelo trabalho;

Destruir a vítima (desencadeamento ou agravamento de doenças pré-existentes). A destruição da vítima engloba vigilância acentuada e constante. A vítima se isola da família e amigos, passando muitas vezes a usar drogas, principalmente o álcool;

Livrar-se das vítimas que são forçados/as a pedir demissão ou são demitidos/as, freqüentemente, por insubordinação;

Impor ao coletivo sua autoridade para aumentar a produtividade ou o controle pelo medo;

A explicitação do assédio moral:

Gestos, condutas abusivas e constrangedoras, humilhar repetidamente, inferiorizar, amedrontar, menosprezar ou desprezar, ironizar, difamar, ridicularizar, risinhos, suspiros, piadas jocosas relacionadas ao sexo, ser indiferente à presença do/a outro/a, estigmatizar os/as adoecidos/as pelo e para o trabalho, colocá-los/as em situações vexatórias, falar baixinho acerca da pessoa, olhar e não ver ou ignorar sua presença, rir daquele/a que apresenta dificuldades, não cumprimentar, sugerir que peçam demissão, dar tarefas sem sentido ou que jamais serão utilizadas ou mesmo irão para o lixo, dar tarefas através de terceiros ou colocar em sua mesa sem avisar, controlar o tempo de idas ao banheiro, tornar público algo íntimo do/a subordinado/a, não explicar a causa da perseguição, difamar, ridicularizar.

As manifestações do assédio segundo o sexo:

Com as mulheres: os controles são diversificados e visam intimidar, submeter, proibir a fala, interditar a fisiologia, controlando tempo e freqüência de permanência nos banheiros. Relacionar atestados médicos e faltas a suspensão de cestas básicas ou promoções.

Com os homens: atingem a virilidade, preferencialmente.

Entre os nazistas a explicação para o holocausto era a miséria que outros países haviam imposto aos alemães, derivando daí um super naciolalismo; depois, deturpações e delírios religiosos e ocultistas advindos de um insaciável desejo de poder de Hitler. Já entre os tiraninhos domésticos está calcada em seu desajuste interno de adaptação social.

Algumas razões se destacam:

Resistência das vítimas em serem manipuladas como os aduladores, servis ou os submissos;

Inveja ou ciúmes do assediador em relação a competência ou qualidades da vítima;

Conhecimento do assediado de práticas ilícitas, fraudes, corrupção, nepotismo, favorecimento e sua recusa em participar de formação de quadrilhas que se instalam nesses ambientes;

Pela perversão narcísica (psicopatia) do assediador etc.

Desta forma, dizer que empresas que se prestam a este tipo de conduta são campos de concentração modernos não é cair em exagero ou potencializar a realidade.

Semelhantemente, deve haver resistência ao mal, decorrente das práticas de assédio psicológico, como houve contra aqueles que tentaram controlar o mundo pela tirania no passado.

Raniery
raniery.monteiro@gmail.com
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