sexta-feira, 27 de julho de 2012

Exercício arbitrário da razão


No filme "Doce Vingança" Jennifer Hills (Sarah Butler) é uma escritora que sai da cidade e vai para uma encantadora cabana na floresta para começar a escrever um novo livro. Mas a presença de Jennifer na pequena cidade chama a atenção de quatro homens, que a estupram, violentam e a espancam, mas antes que eles possam matá-la, Jennifer se joga em um rio e some.

Depois de alguns dias procurando por Jennifer, os quatro homens desistem da busca acreditando que ela tenha morrido e sido levada pelo rio. Mas é ai que a história começa, Jennifer está de volta, e quando você sobrevive de um ataque tão brutal como esse, a única opção... é a vingança.

O tema é antigo. Tão antigo quanto a existência humana, pois aonde quer que vamos lá estará ela: a vingança. Este sentimento negativo que destrói tanto quem dele é alvo quanto quem dele se utiliza. Chama-nos tanto a atenção que é largamente explorado pelo cinema e novelas.

Enraizado em nosso subconsciente e uma resposta dentro de nossos mecanismos de defesa é um dos instintos mais primitivos desde que nos tornamos civilizados.

Para os especialistas em comportamento a vingança pode ser reprovada socialmente, vista como paixão baixa e imoral, uma visão distorcida sobre a convivência em sociedade. Mas a necessidade de se vingar, dizem os pesquisadores, se baseia nos genes.

Atos de vingança pessoal refletem um senso biológico de justiça, dizem, que funciona no cérebro como uma necessidade biológica, assim como a sede, o sexo ou a fome. É uma dicotomia que alterna voracidade e autocontrole, a vingança pode inspirar atos socialmente benéficos de retaliação e punição, bem como atos negativos. 

"A melhor forma de entender a vingança não é como alguma doença, falha moral ou crime, mas como um comportamento profundamente humano e algumas vezes muito funcional", afirmou Michael McCullough, um psicólogo da Universidade de Miami. "A vingança pode ser um bom impedimento para o comportamento ruim, e traz sentimentos de totalidade e preenchimento". 

Acontece que por mais que os especialistas apontem uma legitimidade biológica, fato é, que o Estado proíbe a justiça pelas próprias mãos, pois evoca para si o poder e a força de coerção ou vingança como forma de punição sobre aqueles que decidirem violar direitos tutelados. 

Há pouquíssimos casos em que isso é autorizado juridicamente e que tem caráter de exceção, como no clássico legítima defesa, e, ainda assim, deve-se agir de forma moderada, isto é, proporcional ao agravo. Há o caso em que a pessoa, em determinado momento, perde a noção da realidade e em um arroubo de explosão emocional descontrolada comete o crime movido por forte emoção. Enfim, a regra é não se vingar, já que isso pode configurar o chamado exercício arbitrário da razão.

A única dúvida que tenho em relação ao poder de intimidação social que a lei penal impõe, é se de fato ela tem obtido sucesso em coibir tal delito. Acredito que a grande maioria das pessoas consegue dominar uma raiva incontida diante de injustiças; o problema reside naquelas que não o fazem, além do fato da dificuldade em se conseguir identificá-las. Veja o caso da mulher do empresário que foi morto e esquartejado  pela mulher. quem imaginaria que ela fosse capaz daquilo.

Imagine a seguinte situação: em um determinado ambiente, onde as relações contratuais se dão pela chamada hierarquia disciplinar, um sujeito ou grupo qualquer, utilizando se sua situação de privilégio por estar no poder passa a cometer uma série de abusos e injustiças garantindo-se na força e na impunidade, se o referido local assim os incentivar.

Evidentemente que serão constantes as situações de abuso e de imposição do arbítrio por aquele que é mais forte e detém a capacidade de ameaça e manipulação pelo medo.

Ora, na maior parte das pessoas, ao que parece, este tipo de opressão surte o efeito desejado por estes grupos inescrupulosos, isto é, a inibição, a sujeição e a subverniência necessários para que eles implementem seu reinado de terror e consequente corruptela.

Pois bem, a pergunta que se faz é: até quando eles conseguirão manter este grupo sob coação? E, se não o conseguirem, como identificarão aqueles que se rebelarão e se insurgirão contra eles? Pior, e os que perderam os laços de domínio e avançarão os limites da justiça pelas próprias mãos?

Posso estar errado, mas isso tem a cara de uma bomba relógio que, se não houve explosão, é somente porque ainda não chegou a hora programada, mas que ocorrerá sem sombra de dúvidas.

Um exemplo atual é o que está ocorrendo nas nações árabes, num efeito dominó sem precedentes, à despeito da possibilidade de morrer, inclusive. Fiquei impressionado com o que ocorreu com o ditador Muamar Kadafi morto nas mãos dos rebeldes. Se aquilo não foi um ato de vingança, então, eu não sei o que será.

Perceba que aquele povo foi levado a um ponto de saturação que irrompeu numa revolução sangrenta e no genocídio de milhares de pessoas até culminar com a morte, não menos violenta, do tirano líbio.

Na minha modesta conclusão, eu entendo que é o agressor que promove a reação de vingança, à ponto de alguém decidir romper com suas estruturas morais, e, partir para a justiça com as próprias mãos, pois em um estado normal ninguém lançaria mão de tal recurso. É uma reação provocada por inúmeras ações, penso eu.

É claro e óbvio que um erro não justifica o outro, mas uma sucessão deles, ainda mais se forem deliberados, poderão transformar uma panela de pressão em uma caldeira prestes a explodir.
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Raniery