terça-feira, 17 de julho de 2012

Carniceiros de plantão


Rango é um camaleão doméstico que vai parar, após um acidente, na cidade de Poeira, no deserto do Mojave, na Califórnia. De uma hora para outra, sua rotina de animal de estimação mudou radicalmente e agora ele precisa deixar a vida "camuflada" para enfrentar os perigos existentes no mundo real, fazendo com que ele vivencie a experiência de fazer amigos, conhecer inimigos e até, quem sabe, se tornar um herói. 

Nosso anti herói chega numa cidade governada por uma tartaruga e sob ameaças constantes de animais de diversos ciclos de sobrevivência como Jake Cobra e sua predadora a Ave. Mas a questão não está na submissão através da força, e, sim pelo medo. Neste local, há a escassez de água que compromete o desenvolvimento da cidade e o otimismo dos cidadãos. O que acontece na realidade é o controle do povo através da água, ou a falta desta.

No decorrer da aventura, um grupo de corujas mariachis acompanham o desventuroso personagem narrando em tom de prosa os acontecimentos, principalmente os que lhe são contrários. Parecem mesmo torcer “contra” aguardando o momento final de sua derrota.

Tais corujas muito se parecem com determinados colegas de trabalho que a despeito de estarem ao seu lado no mesmo local, ou de dizerem que são seus amigos, no fundo, torcem para que algo dê errado para você.

Eu os chamo de carniceiros, pois parecem urubus à espera de um alimento fácil de conseguir sem ter trabalho para isso. No caso, saciam-se com alguém que esteja passando por problemas, como o assédio moral, por exemplo. Vi isso ocorrer comigo e recentemente com um superior hierárquico onde houve um misto de êxtase e euforia por parte de determinadas pessoas que por um motivo ou outro não se simpatizavam conosco.

Ironicamente ocorreu comigo o inverso quanto ao superior descrito. Quase que diariamente alguém me avisa dos perigos que estou correndo. Engraçado mesmo é que tanto ele quanto eu caímos nesta conversa no passado para somente após um contato mais próximo poder avaliarmos por nossas próprias conclusões o que pensamos.

Há um outro lado da violência psicológica que muitas vezes passa desapercebida. É um lado não muito bonito de se ver, mas que expõe a natureza de determinadas pessoas especialmente dentro de um grupo. Nele, covardia, baixeza de espírito, menosprezo, indiferença e falta de solidariedade serão manifestados em todo o seu explendor.

Nessas ocasiões, o colega de trabalho internaliza a mensagem do assediador inferindo que se o chefe persegue alguém deve ser por que este fez algo para merecê-lo. É o chamado erro por atribuição derivado do mecanismo psicológico da dissonância cognitiva.

Diante de um ataque de um assediador moral, determinadas pessoas ficam com medo de conversar com o estigmatizado para não se ver associado a ele e experimentarem eventuais represálias.  Lembro-me de inúmeros colegas relatarem-me que foram advertidos quanto ao contato e amizades comigo como fator desabonador perante a chefia, sendo que muitos foram constrangidos a não conversar comigo e outros tantos, por uma fraqueza de personalidade, acataram para depois de algum tempo virem a mim narrando que estavam sendo perseguidos e solicitaram informações de como lidar com a situação.

O comum, nesses casos, é que, determinados elementos do grupo, se associem ao agressor produzindo dano psicológico, e, a exceção, é a solidariedade. É comum que as pessoas se afastem por vários motivos: confusão, receio, medo dos agressores, covardia etc.

Quase todos (a maioria) adotam a chamada atitude prudente de não se envolver e fingir que nada está acontecendo a ponto de, em determinado momento, acreditarem nisso. Depois de um tempo, o que fica é a sensação de que a vítima provocou tudo aquilo e que merece ser estigmatizada. 

No meu caso, houve uma rede social associada ao setor que trabalho que declarou explicitamente que eu deveria ser isolado para que me sentisse constrangido e fosse embora.

Vem-me a mente a imagem de um de seus moderadores que, aos risos, dizia que eu estava famoso até entre outras empresas. Ironicamente este cidadão vive pregando a salvação do evangelho cristão a todos, apesar de ser uma unanimidade entre as pessoas sua falta de caráter.

Neste instante, bem no furor do problema aparecem os conselheiros bem intencionados. Sua cruzada consiste em fazer com que a vítima se cale e não resista. Fazem isso pelo medo de que o assédio aconteça com eles, também. Em regra, seus conselhos atribuem culpa à vítima. Até então, ninguém apareceu para oferecer apoio mas nessa hora, quando alguém fala com você é para te dar “conselhos”.

Nunca em minha vida eu vi tantos conselheiros num mesmo lugar. Curiosamente seus discursos eram os mesmos: ‘não bater de frente com a chefia’, ‘deixar pra lá’, ‘ficar quieto até a poeira baixar’, ‘não aborrecê-los’ etc. Nenhum sequer citava a ilegalidade das ações, a perversidade dos agressores, mas deixavam implícito uma culpabilidade. Tudo, na maior boa intenção! Só para ajudar! Pela amizade!

Mas nessa história não pode faltar os traiçoeiros. São de fácil detecção. Seu cheiro asqueroso os denuncia de longe. Não possuem amor próprio, se submetem a qualquer coisa por farelos, e são os instrumentos preferidos dos assediadores, até por que são de fácil descarte. Estão ali para fazer o trabalho de logística do covarde perverso para que se passe uma idéia de que ele não tem nada a ver com a agressão.

Suas tarefas são inúmeras dentro de um circuito de patifarias: delação, manipulação, falso testemunho, armadilhas, distorção do trabalho, roubo, mentiras deliberadas, calúnia, boatos, emissão de informações erradas, supervalorizar erros, minimizar qualidades etc. Os assediadores pedem, os trairas fazem.

Dentre tantos, nenhum é mais sórdido e medíocre do que o torcedor de arquibancada. Ele não gosta nem do assediador e muito menos da vítima, mas de ver o sangue jorrar, seja de quem for. Ele quer o combate, a luta, o prejuízo. Ele, à sua maneira, é esperto, pois qualquer um que tombar lhe proporcionará algum lucro. O conhecemos como competidor social. Aquela criaturinha que adora puxar o tapete dos outros para se “arrumar”. Então, para ele, tanto faz um quanto o outro, se o assediador ou o assediado. Ele é assim mesmo, desprezível. 

Da mesma forma que as corujas mariachis do "longa, Rango" ficavam à espreita cantarolando o momento do fim, estas pessoas vivem e existem para isso, isto é, alimentam-se do mal alheio. São personagens que se aproximam de você para lançar uma frase de desespero, cavar informações, disseminar a intriga, alimentar o mal, pois suas energias derivam disso. 

Por isso, não faz mal algum selecionar quem será seu amigo em determinados ambientes, pois pode ser que se esteja diante de um ser obscuro como os carniceiros e nem se saiba. Logo, todo cuidado é pouco.
leia também: Dupla Face
                      Sinos retumbantes
                      É impressão minha ou...?


Raniery
raniery.monteiro@gmail.com