sábado, 3 de agosto de 2013

Canibais de Nós Mesmos

A vida é o bem maior a ser protegido. Sua dignidade não pode ser aviltada. A indisponibilidade não permite que seja alienada. E o Estado Democrático de Direito é o seu guardião.

No entanto, o que vemos cotidianamente é a sua violação nas mais diversas formas pelos inimigos da democracia. Estes agentes do caos podem encarnar qualquer tipo de ser ou organização. Com uma ganância por poder e lucro estraçalham, como cães raivosos, os princípios constitucionais protetores dos direitos e garantias fundamentais.

Esta espécie de canibalismo produz um estado doentio na sociedade - que não evolui nem sedimenta seus pilares estruturais. Daí por que se deve resistir e combater energicamente toda forma de corrosão de tais valores.

A vida para existir demanda energia que consome seus respectivos substratos. Da concepção ao nascimento há um lapso de tempo associado a proteção do organismo gerador que serve de estação química para que o potencial ser venha a ocupar um lugar no mundo.

Toda fêmea já vem programada para proteger sua cria a fim de que ela tenha plenas condições de sobrevivência e perpetue a espécie. Mas há alguns casos anômalos em que alguma coisa dá errado e ela, ou rejeita seus filhotes, ou os devora. Dizemos que aquele ser não vingou. Sua existência foi subtraída, interrompida, roubada.

Acontece que a vida selvagem possui suas próprias leis que, diferentemente das humanas, não chega necessariamente a ser algo tão dramático e se auto-regulam conforme seus princípios evolucionários.

Perceba que eu disse selvagem. Não é o nosso caso, já que atingimos outro estágio desse mesmo processo evolucionário sendo umas das poucas espécies conscientes de sua própria existência e natureza.

Então, quando nos deparamos com similares de nossa própria espécie que se voltam contra nós ficamos confusos e tal perplexidade nos faz pensar no que deve ter dado de errado com aquele exemplar.

Com aparência de civilizados, visualmente se parecem conosco. Vão à igreja, participam de comemorações, trabalham, se casam, contam piada, ou seja, fazem tudo o que nós fazemos e talvez ainda pareçam mais perfeitos que nós. Mas, por dentro são feras selvagens, com intenções predatórias, que se ressentem de ter que dividir o mesmo espaço que os outros, que os desprezam enquanto seres.

Como se acham mais fortes e melhores repudiam toda e qualquer forma de convenção social que os faça se equivaler aos demais. Sociabilidade, coletividade, grupo são palavras que os enraivecem, pois significa que terão que fazer o mesmo que os outros, se quiserem obter os mesmos resultados.

E é aí que seus instintos destrutivos entram em ação e disparam  mensagens de ataque em seus cérebros incompletos. Veja, que eles não conseguem enxergar as coisas como são. Não que não possam, devido a alguma deficiência, mas por que rejeitam as ferramentas que possuem para tal.

Sendo assim, se utilizam dos mais réprobos meios para conseguir levar alguma vantagem e enquadram isso dentro de um contexto que denominam de política. Mas, política não é um fenômeno cultural fragmentador das sociedades, ao contrário, foi isso que as tornou coesas. Foi dessa forma que chegamos até aqui, milhares de centenas de anos após tomarmos consciência de nossa existência.

Até por que, fazer política significa aderir a regras, seja lá quais forem, ou seja, terão que se adequar de alguma forma. Basta você olhar para o lar onde cresceu e perceberá o quanto de política teve que fazer para se adaptar a sua família. Conflito é algo inerente a nossa natureza, mas criamos a política para regular isso.

Claro que quando falo de fazer política, logo nos vem a mente coisas como corrupção, fraude, roubalheira que na realidade expõe a incompetência de uma classe e geração atual de políticos e não uma forma de administrar o poder. 

Como citei a palavra adaptação fiquei pensando que isso pode ser algo positivo ou inibidor. É positivo como forma de resolução de problemas que produziu o próprio ser humano como o mais adaptado animal terrestre até hoje. Por outro lado, isso pode ser um poder narcotizante que forja seres resignados e inertes, com características de subverniência e incapacidade para fazer avaliações críticas de sua realidade- se adaptaram à exploração, ao engano, ou à manipulação.

Por isso que determinados princípios e pressupostos funcionam como lentes capazes de nos fazer sair da caverna de nossa ignorância e rejeitar que manifestações anômalas consigam sorver nossos direitos e garantias.

Outro dia conversando com minha atual advogada tive que concordar com ela sobre algumas asserções que fez quando disse que fica perplexa como podemos ser tão passivos diante de tantos desmandos e violações mesmo sendo uma comunidade de pessoas inteligentes e capazes.

A minha teoria é que fomos educados desde a tenra infância para nos resignarmos e sermos servis, pois isso soa como positivo e bem aceito. Logo, alguém que pense ou questione é visto como perturbador do “Status Quo” e o próprio grupo se encarrega de neutralizá-lo e blindar o manipulador. Não fazem isso por que têm ciência, propositalmente, mas de forma inconsciente, pois foram programados para existir assim.

Estão na caverna; nasceram lá; sequer sabem que existe outra realidade que não a escuridão. Qualquer um que fale que há outra verdade é imediatamente tido como mentiroso numa inversão de valores e passa a ser hostilizado como se quisesse ser melhor que os outros.

Na escuridão gélida da ignorância somente conseguem enxergar vultos do que imaginam ser a realidade e, então, se tornam especialistas da distorção. Nesse ambiente surgem os líderes das trevas, não que sejam pessoas más, mas cegos que guiam outros cegos.

Do lado privilegiado estão seus canibais e vampiros, que os criam como gado para se alimentar de suas vidas. Como não comem de verdade, mas são alimentados com ração acreditam que aquele que enche seus potes é bom para eles. Chegam até mesmo a sentir um certo temor reverencial com misto de admiração. A uma palavra de comando começam a trotar e vão para a direção que lhes for mandada, pois lembre-se: comem nas mãos de seu abatedor.

Quem não sabe o que significa dignidade não conseguirá conceber o direito de  tê-la subtraída. Não entenderá que não há por que se arrastar ou abaixar a cabeça ruminando capim. Se vende por qualquer migalha e ainda acha que está levando vantagem. Se submete a todo tipo de infâmia e fica contente com isso. Como então, diante de tal estado deplorável de existência se poderá exigir que alguém não faça aquilo pelo qual fora programado a vida toda? 

Concluindo: se de um lado temos aqueles que deliberadamente decidirão que invadirão a vida alheia para lesá-la, de outro, há os que parecem sentir um mórbido e sádico prazer em ser devorados por eles, abrindo mão de sua própria dignidade. Entretanto há os que não abrem mão deste bem tão precioso, que é maior que o próprio Estado a despeito dele protegê-lo. Para estes, a recompensa está em manter sua integridade intacta e não violada por aqueles que a desprezam.

Portanto, se queremos uma sociedade mais justa deveríamos lutar para que de fato este ideal se concretize. 

Não á toa estamos presenciando as diversas manifestações, Brasil afora, confrontando aqueles que historicamente têm 
massacrado seu próprio
povo.
Raniery